Palavras novas e velhas

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A derradeira lição do mestre


Esta estampa, quando a vi, recordou-me poderosamente  aquela estampa de Castelao, como se for uma actualização do seu gérnio: "a derradeira lição do mestre".



No capítulo LVIII da segunda parte de El Quixote, Miguel de Cervantes faz dizer ao seu protagonista: ”La libertad, Sancho, es uno de los más preciosos dones que a los hombres dieron los cielos; con ella no pueden igualarse los tesoros que encierra la tierra y el mar encubre; por libertad así como por la honra, se puede aventurar la vida y, por el contrario, el cautiverio es el mayor mal que puede venir a los hombres”. Sabia de que falava quem perdera um braço em Lepanto e vivera anos no cárcere. Algo comum no Reino das Espanha onde sempre os seus génios morreram no exílio, na marginalidade ou no cárcere, enquanto os tiranos o faziam na cama e no poder.



Nos nossos dias confunde-se o que em inglês se diferencia como "freedom" e "liberty". Confunde-se a liberdade de transacção, que reduz os homens a simples mercadorias - já não digamos a mulher-, com a liberdade que vai além do "formal" e "nominal". A autêntica liberdade, e convém lembrar isto agora que Europa está numa involução a passos gigantescos com o visto e praze de boa parte da população em shock, é a liberdade substantiva. 



 Porém a liberdade substantiva, ou a Liberdade, não existe (nem pode dar-se) se não há certos princípios básicos de igualdade (justiça social) e de fraternidade (solidariedade). A igualdade e a liberdade requerem justamente que todos tenham cobertas as bases materiais para a subsistência (algo impossível no que Shumpeter qualificou como proceder do capitalismo: a destruição criativa) e isso, nas coordenadas da sociedade civil e política conquista-se com o exercício da fraternidade. Uma fraternidade que o individualismo atomizador baniu das sociedades actuais, também na militância de boa parte da esquerda faústica infelizmente... Recuperar a fraternidade e recuperar as bases e sentar ilusão e esperança na mudança e na luta comum. Como dizia aquele poema do Miguel Hernández, moto numa cárcere do fascismo, "Para la libertad sangro, lucho, pervivo...".



 As novas gerações, infelizmente, vendemos qual Fausto a nossa Liberdade pela liberdade de consumir e feliz e passivamente deixar que outros teceram a teia do nosso destino. Agora, quando nos retiraram os narcóticos acorda-nos volver aonde Penélope com a esperança de voltar tecer pela noite o que desteceram pelo dia... mas já não há "nostoi" para as nossas gerações.



O cão Argos morre ao ver o seu velho amo regressar após 1945...  quando vivemos no capitalismo mais selvagem retornou o velho amo. Tal e como Brech avisara o 6 de maio de 1945 referindo-se ao capitalismo como causa do fascismo: "Senhores, não estejam tão contentes com a derrota [de Hitler]. Porque embora o mundo se tenha posto de pé e teha detido ao Bastardo, a Puta que o pariu anda quente novamente".  neste tempo e nesta hora só há dois caminhos igualmente dolorosos: socialismo ou barbárie! E os ecos de Prometeu voltam-se ouvir.


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Á REVOLTA ENTRE A MOCIDADE: A constituiçom consuetudinária e a ressurreiçom da...

Á REVOLTA ENTRE A MOCIDADE: A constituiçom consuetudinária e a ressurreiçom da...:

Héctor Rodríguez Vidal e Antom Fente Parada .

O mundo ao revés ensínanos a padecermos a realidade no canto de mudala, a esquecermos o...

segunda-feira, 6 de junho de 2011

De Marx e o logos a Prometeu e o mito

Antom Fente Parada, 6-6-2011

Wäre es da
Nicht doch einfacher, die Regierung
Löste das Volk auf und
Wählte ein anderes?, Bertold Brecht: “Die Lösung”1.



Dizia Gramsci, ao analisar a análise da arte que se dava no livro Ensaio Popular de Lukács, que o juízo o oferecido do Prometeu de Goethe era superficial e e extremadamente genérico, dando a impressom, segundo o filósofo italiano, de que Lukács desconhecia tanto a história do mito de Prometeu na literatura mundial antes de Goethe como o seu tratamento em tempos do próprio autor alemám2. António Gramsci perguntava-se como é que se podia distinguir entom o que era estritamente pessoal de Goethe do que é representativo da época e dos seus grupos sociais sem recorrer à filosofia da praxe3.

Marx e Engels viam a força como a parteira do progresso histórico e aí enquadra-se a sua ligaçom com a ditadura do proletariado (logo reinterpretada polo leninismo) e o terror no sentido robespierriano. Também existia certa dose de apocalipse nas suas teorias quanto subestimárom a capacidade de regeneraçom do capitalismo e viam a chegada do socialismo (o paraíso) como algo iminente. Este tipo de pensamento existia já no materialismo judeu-cristao, mas agora mudava-se a promessa do paraíso no céu pola promessa dum paraíso na terra. Entom, como acontecia no cristianismo com a vinda do Messias, aqueles que se opusessem ao avanço do comunismo seriam também esmagados algo que sublinhárom os bolcheviques e demais representantes do marxismo menos romántico e mais modernista, mais autoritário e menos libertário.

Prometeu é o herói que se enfrenta aos deuses em nome do progresso da humanidade, por isso é um gigante. Marx e Engels seguírom a Maquiavel na rejeiçom da moralidade como princípio para a acçom e abraçárom princípios científicos de análise e recomendaçom como parte do legado do Iluminismo europeu. Já David Hume ou Voltaire tinham criticado com força a superstiçom e o preconceito e a ciência foi-se erguendo como religiom substituta (até ser a religiom do poder nos nossos dias onde os “expertos científicos” sancionam através da mídia as decisons do poder sem que exista “alternativa” e passam por cima dos, teoricamente, representantes da cidadania).

No entanto, como no se vê no conto de Ferrín “A noite no chao” em que se analisa a alienaçom social e como os oprimidos se negam a serem libertos, Marx e Engels negárom-se em redondo a idealizar os pobres e oprimidos como faziam muitos socialistas da época. Sempre que falavam das massas atribuíam a responsabilidade de todas as falhas e deficiências às classes governantes. Elogiavam o “proletariado” como classe e afirmavam que o capitalismo desviara os seus membros do caminho da verdade e da racionalidade, alienando-os. Nom conheciam o lume sagrado que lhes trazeria Prometeu, o marxismo. De facto, Lenine – os bolcheviques faziam umha interpretaçom em extremo autoritária e simplificativa em muitos aspectos das ensinanças de Marx e Engels– apelou à “guerra civil europeia” entre a burguesia e o proletariado do continente e Trotski sublinhava a necessidade da revoluçom permanente (ergo mundial)4.

Destarte, o marxismo procurava criar um homem novo, livre dos hábitos do passado, purificado pola acçom do lume prometeico. Em 1831 Eugène Delacroix apresentou no Salom de Paris da Academia de Belas Artes o seu quadro O 28 de julho de 1830: a Liberdade guiando ao povo, em que represenava o primeiro levantamento importante na Europa desde 1789. A pintura punha de relevo a aliança entre burgueses e proletariado que se produzira na Revoluçom francesa e ao contrário que os Horácios de David punha em destaque sobretodo os pobres e os operário e nom os burgueses. Se David pertencia ao neoclassicismo, Delacroix era um pintor resolutivamente romántico e seria um prometeu alemám, Karl Marx, o que preconizaria dum jeito incondicional a violência revolucionária através dumha nova política: o socialismo5.

Na Rússia pré-revolucionária tivera muito efeito umha obra de Nikolai Chernishevski publicada em 1863 e intitulada Que fazer?, que, ao igual que o legado de Rousseau no prévio a 1798, promulgava entre a mocidade da época umha alternativa à sociedade russa da altura caracterizada pola hierarquia, a subvordinaçom e a divisom social. A isto opunham o homem novo e a liberdade. As personagens de Chernishevski fôrom satirizadas na obra Memória do subsolo de Dostoievski, publicada em 1864, mas esse nom era nem muito menos o sentimento que prevalecia na mocidade e Que fazer? Converteu-se numha sorte de Bíblia, a pesar da sua obscura redacçom para sortear a censura e da sua escassa feiçom literária, para geraçons enteiras do estudantado radical russo6.

Precisamente foi Vladimir Ulianov, Lenine, quem adaptou o socialismo de Chernishevski ao mundo moderno e o marxismo modernista da Segunda Internacional às condiçons de Rússia e a diferença do seu irmao anarquista, Aleksandr executado em 1887 na forca, nunca foi um socialista utópico ou romántico.

A alegoria mais útil para entendermos o comunismo é, no entanto, a que provem da tragédia clássica ateniense do século -V. As tragédias gregas, como é bem sabido, mostravam em forma dramatizada um conjunto de transiçons fundamentais na sociedade humana: da ordem hierárquica patriarcal a umha comunidade fraternal e igualitária; dumha sociedade aristocrática de reis guerreiros como a de Homero a umha outra mais “democrática” em que todos os cidadaos varons participavam da política e luitavam como iguais no exército popular; e dumha sociedade de clans e feudos – as gens de que fala Engels em A origem da família, a propriedade privada e o Estado– a outra integrada sob o império da lei. A trilogia sobre Prometeu, atribuída a Esquilo, oferece umha dramatizaçom especialmente chamativa da transiçom da ordem patriarcal à fraterna e do atraso ao conhecimento, à modernidade.

No Prometeu encadeado de Esquilo, a primeira parte a trilogia e a única que se conserva integramente, destacam quatro personagens. Cratos, personificaçom masculina do poder e da força (cratos em grego significava poder), e a sua irmá violenta Bia servintes do tiránico pai dos deuses Zeus. O mensageiro Hermes e Prometeu (literalmente “previsor”) que é mostrado dum jeito muito positivo como ser racional ao que a intransigência do poder, de Zeus, e a covardia de Hermes transformárom num rebelde colérico. Prometeu está disposto a enfrentar-se a Zeus ainda quando isso signifique o emprego dumha terrível violência. Trata-se entom dumha magnífica amostra da tensom entre hierarquia e tradiçom face a igualdade de modernidade. Nom é causa de surpresa que o Prometeu heroico mas colérico de Esquilo se erigira como símbolo da emancipaçom para poetas opositores das monarquias europeias, desde Goethe até Shelley. No entanto, foi Karl Marx quem adoptou mais plenamente a metáfora vendo-o como santo e mártir mais eminente do calendário filosófico. No adro da sua tesinha de doutaramento, “Diferenças entre filosofia natural de Demócrito e Epicuro”, citava o seu herói: «Em poucas palavras, odio a todos os deuses... Melhor estar encadeado a esta peneda que escravizado ao serviço de Zeus».

No entanto, com o leninismo, vemos como umha vez que o comunismo autoritário chegava ao poder abandonava as suas ambiçons románticas e advogava pola tecnocracia e o fervor revolucionário. O marxismo modernista, face o marxismo romantista, era umha ideologia tecnocrática do desenvolvimento económico baseada no “saber fazer” dos mais expertos – e na vanguarda–, nos planos centralizados e na disciplina. O desejo quase religioso dos bolcheviques de transformar a sociedade e a sua visom maniqueia do mundo onde alentavam os elementos mais repressivos e violentos do velho mito, dariam como resultado umha política muito diferente da proposta e aplicada por Marx e onde se “redimiria” ao oprimido contra a sua vontade aplicando umha violência parelha, senom maior por vezes (como com Bèla Khun ou Pol-Pot) da do capitalismo7.

Vsévolod Pudovkine no filme A fim de Sam Petersburgo apresenta a revoluçom como umha força modernizadora através da vida dum camponês, com o que o autor queria sublinhar que os camponeses também podiam modernizar-se e converterem-se em revolucionários, isso sim, sob a batuta da direcçom bolchevique8. De facto, fora Lenine quem tentara junguir o marxismo revolucionário e o modernismo através do partido de vanguarda “de novo tipo” porta-voz da revoluçom e a modernidade. O filme de Pudovkine demonstra o muito que virara imagem da revoluçom desde os dias de Delacroix e a hegemonia, em sentido gramsciano, do marxismo modernista entre os revolucionários do mundo especialmente a partir de 19179

Em 1913 aparece o romance simbolista Petersburg de Andrei Bely num cenário bem diferente aos de Dostoievski e Chernishevski. Ambientada em 1905, Petersburgo fai palidecer à Aúria descrita por Blanco Amor em Xente ao lonxe e que é a primeira incorporaçom do proletariado à literatura galega. Bely apresenta-nos umha cidade que ferve rodeada por «um anel de fábricas com muitas chemineas» desde a que se sente o som revolucionário do proletariado. Dez anos depois, em 1923, aparecia Cavalaria vermelha, umha serie de relatos de Isaak Babel, onde se exprimiam as experiências do autor, correspondente de guerra com a cavalaria cosaca de Budionni na campanha contra Polónia de 1920. O livro obtivo muito sucesso e reflectia a extrema violência que se vivera na guerra civil10.

O Prometeu colérico voltava irromper. Embora Lenine nom fora um entusiasta nietzscheano da “violência redentora”, que hoje Slavoj Zizek pregoa falsamente nalgumha reinterpretaçom de Lenine, tampouco a enjeitava e sempre aprovou a vingança de classe, tentando que as massas foram ao tempo revolucionárias e disciplinadas o que enervaria o radicalismo dos “saltos adiante” e das mobilizaçons populares de Estaline e Mao em décadas posteriores. 
 
A isto junguia-se a prédica da modernidade que nom se limitava apenas no caso dos bolcheviques à indústria pesada e a eficiência no trabalho, mas também à educaçom de massas, a protecçom social, a desapariçom da religiom e a emancipaçom feminina (escassamente lograda contodo). Aleksei Gastev, até 1917 operário metalúrgico e poeta, foi um dos mais entusiastas propagandistas do taylorismo como demonstra o seu poema mais conhecido, “My rastiom iz zheleza” (Crescemos do ferro), de 1914 e que fundou em 1921, com o apoio de Trotski e Lenine, o Instituto Central do Trabalho. Do modelo da Comuna de Paris passou-se assim à gestom pretensamente científica de Frederick W. Taylor que se aplicara já nas fábricas de carros de Henry Ford nos EUA. Para Taylor cumpria dividir as tarefas dos trabalhadores em movimentos precisos, medindo-os ao segundo e calculando o seu ordenado segundo a produçom. Lenine esquecia assim que com anterioridade condenara este sistema como exemplo típico do capitalismo embrutecedor Esta utopia foi atacada por Ievgeni Zamiatin na sua distopia We (Nós), redactada entre 1920 e 1921, e publicada em inglês em 1924 e que inspiraria como modelo a obra mestra de George Orwell: 198411.

Umha variante do Prometeu colérico é o drama Spartakus, estrenado sob o título Trommeln in der Nacht (Tambores da noite) o 23 de setembro de 1922 em Munique e o 20 de dezembro em Berlim que lhe valeu a Bertlolt Brecht o prestigioso prémio Kleist. Em Spartakus um soldado, Andreas Kragler, regressa da guerra e topa-se com umha Alemanha cheia de venalidade e corruçom. Quanto Brecht escreve esta peça Europa encontrava-se na terceira onda revolucionaria -a mais radical- após as de 1789 e 184812. Por vez primeira, governar sem a burguesia – que desde as revoluçons de 1848 deixara de ser para sempre umha classe revolucionária– era nom só possível, mas também para a asa mais radical do socialismo necessário. A diferença do SPD e da socialdemocracia, intelectuais13 e comunistas estavam na primeira linha da revoluçom. No entanto Brecht mostra-se premonitório pois Andreas Kragler toda vez que vence o seu rival burguês no amor de Anna contenta-se com a comodície da sua vida privada e nom luita já por um governo operário revolucionário. 
 
Precisamente, quando os espartaquistas tentárom a tomada do poder efemeramente em 1919 em Alemanha e em 1921 a maré revolucionária estava já por toda a parte em retrocesso, pois os partidos comunistas nascidos ao amparo da Revoluçom de 1917 nom conseguiram ganhar-se à maioria da classe operária e o campesinhado e mediada a década de vinte as classes dominantes restauraram a ordem e o edifício da autoridade e da propriedade. Lenine efectuou entom um “repregue”, que assumírom os partidos comunistas por toda a parte, baseado na disciplina e a hierarquia e oposto ao idealismo de 1918-191914.

Diederich Hessling, o antiherói de Heinrich Mann no romance O patrioteiro (Der Untertan, publicada em 1918, mas completada segundo o autor antes da Grande Guerra) é a literaturizaçom do servilismo de Hermes com Zeus. É um burguês feudalizado e completamente servil com o káiser Guilherme que renúncia a missom histórica da burguesia por medo ao “perigo vermelho”. A obra corrobora a teoria do imperialismo de Rosa Luxemburgo e outros marxistas, para os que existia um “vencelho de ferro” entre o capitalismo e o imperialismo militarista dumha banda, e a velha tese liberal do capitalismo com portador de liberdade e paz pola outra cada vez menos crível (como nesta nova crise da hegemonia, desta volta norte-americana aconcete, por exemplo com as guerras do Iraque, o Afeganistám, Líbia ou o assassinato de Bin Laden) ao aumentar a repressom e as desigualdades sociais.

O Prometeu vitorioso no entanto ficara reduzido à Rússia. A recriaçom da revoluçom de Outubro de 1917 mais lograda, a partir dum livro dum correspondente norte-americano, quiçais for a de Sierguei Eisenstein: Outubro: dez dias que estremecêrom o mundo. Porém, a diferença de Pudovkine, nom pudo apresentar a sua obra em tempo, afastada do marxismo modernista. Assim, enquanto Pudovkine apresentava A fim de Sam Petersburgo, que retratava a consciência socialista disciplinada e racional, Eisenstein advogara polo romantismo revolucionário num filme em que se expom com perícia o marxismo radical e o heroismo colectivo. O filme, que apareceu em março de 1928, contou com 5.000 extras e umha toleráncia das autoridades grande – sem isençom da censura isso sim–, para criar um filme muito propagandístico e para alimentar o mito de Outubro de 1917. A auténtica mensagem radical era a luita de classes, se bem o recebimento na URSS foi menor, pola sua falha de inteligibilidade para as gentes do comum, a respeito da de Pudovkine (se bem conectava melhor com a nova ordem que se desenvolvia sob Estaline)15.

Morte e ressurreiçom de Prometeu

Com anterioridade, entre 1922 e 1924, escreveu-se o romance Cimento do escritor proletário Fiodor Gladkov que nos conta a história dum herói da guerra civil, Gleb Chumalov, que torna à sua morada ao ser desmobilizado e topa-se com a sua amada fábrica de cimento inactiva e caindo a pedaços. O frente da guerra civil dava passo ao “frente industrial” e entre os trabalhadores deviam sair novos prometeus para exercer a sua violência sobre os “inimigos de classe”, os tecnócratas e os burócratas. Embora, Gladkov escreve que o protagonista respalda a NEP o certo é que deixa enxergar a decepçom que no PCUS provocava e, ao igual que os jacobinos na Revoluçom francesa, recomendava audácia, audácia e audácia como a demonstrada durante a guerra civil, ou seja, volta à mobilziaçom das massas e à luita de classes16.

O retrato oficial do estalinismo e do seu forte chovinismo aparece em Aleksandr Nievski de Eisenstein. É o retrato do príncipe medieval Alexander Iaroslavich de Nóvgorod que dirigiu a resistência contra os invasores suecos e da Ordem Teutónica entre 1240-1942. O valor e renartaria dos eslavos permite-lhes derrotar aos orgulhosos teutons superiores tecnologicamente. Os ideólogos do partido topavam-se elaborando umha versom selectiva do nacionalismo russo, um bolcheviquismo nacional. Prometeu morrera e a revoluçom também ao tempo que Estaline promovia o culto a personalidade, especialmente após o fracasso da “Grande Ruptura” em 1933, com o apoio da nomenklatura que se convertera num grupo de estatus previlegiado17
 
Novamente vai ser Eisenstein quem ofereça umha versom oficial. Entre 1942 e 1944 roda-se Iván Grozny (Ivám IV, “o Terrível”), que obtivo o prémio Estaline de 1944. Em 1946 filma-se a segunda parte, A Conjetura dos boiardos, que nom se estrenou até 1958 já que foi proibida pola censura. A terceira parte também se filmou em 1946, mas foi requisada ao morrer Eisenstein em 1948 e provavelmente destruída em sua maior parte. A criaçom da opríchnina por parte daquele sanguinário monarca absolutista foi posterior à unificaçom de Rússia e a derrota dos seus inimigos. Aquela guarda real foi empregada para disciplinar os boiardos, nobreza russa, e interprestou-se como um momento progressista na história russa. Na URSS o novo Iván era Estaline e a nova opríchnina era o NKVD. No entanto, Eisenstein dá-lhe umha dimensom psicológica à personagem e umha olhada cada vez mais psicodélica e claustrofóbica que propiciou a censura.

Após a morte de Estaline o seu regime é moderamente criticado. Alguns intelectuais enervam contodo esta crítica. Vladimir Dudintsev atacou a inlfuintes estalinistas. Nom só de pam vive o homem era um romance muito popular na altura. Tratava-se dum romance de tese que se congraciava com as ideias quase románticas do primeiro Jruschov, mas ao tempo incidia nas causas que fariam fracassar estas ideias. Dudintsev condenava a tecnocracia insensível do estalinismo serôdio e por sua vez advogava pola volta ao idealismo e a um novo marxismo utopista caracterizado pola democracia, os sentimentos e a criatividade. Na mesma linha ia a obra O Desgelo de Ehrenburg, publicada em 1954, e que fazia eco da ideia de Jruschov de que toda pessoa tinha umha criatividade inata que convinha explorar. Ainda assim, tanto Jrischov como estes autores negavam-se a recuperar a retórica da velha luita de classes e o novo Prometeu, muito menos colérico e mais racional, era um técnico experto e nom um operário manual. Já que a elite do partido era irreformável a salvaçom vinha necessariamente da criatividade18.

A vida no Gulag literaturizou-se em Um dia na vida de Iván Denisovich, um relato tétrico de Solzhenitsyn que influiria no movimento do maio do 68 occidental. Prometeu voltava, mas já nom nos estados do “socialismo real”, mas nas sociedades estratificadas e oprimidas do Terceiro Mundo, desde o romantismo idealista do Ché Guevara até a Angola e o Moçambique que luitavam pola independência na guerra colonial.

A começos de 1970 Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, Pepetela, escreve Mayombe. Pepetela era um combatente branco do MPLA e como deixa já claro desde a sua dedicatória volta à modernidade prometeica e à guerra, já que Ogun é um deus africano da guerra:
Aos guerrilheiros de Mayombe,
que se atrevêrom a desafiar os deuses
abrindo um caminho através das escura floresta,
vou-lhes contar o conto de Ogún,
o Prometeu africano.

Mayombe conta a história dum grupo de guerrilheiros que combatem contra os tugas, os portugueses, na densa floresta de nome homónimo. Um dos núcleos do romance é o esforço por forjar um povo angolenho moderno que ponha fim às divisons tribais e ao passado racista colonial. Agostinho Neto, futuro líder do MPLA, ou o estudante de agronomia de Cabo Verde Amílcar Cabral futuro líder do PAIGC serám os Prometeus da África de língua portuguesa. Nunca a literatura, a cultura e a política conheceram umha feiçom tam fundamente marxista num processo revolucionário onde se junguiam a emancipaçom nacional e social. Ao igual que o Ferrín de “A noite no chao” em Quem me dera ser onda? visualiza-se a dificuldade de redimir ao oprimido inconsciente da sua alienaçom (se bem num tom muito mais cómico).

O mundo efervescente e emancipatório do sul contratava com o mundo sem valores aborrecível e o gozo intolerante das massas do Segundo e do Primeiro Mundo que retrata Milan Kundera na segunda parte do seu romance A brincadeira, onde capta as mudanças da Europa oriental após a morte de Estaline. A preocupaçom dos comunistas polo consumismo reflectia-se na comédia romántica de 1984 intitulada Blondinka za uglom (A loira do lado) e que fazia referência às contrariedades que provocava o lucrativo mercado negro nos estados do leste. 
 
A fascinaçom polos objectos de consumo, polos fetiches ressaltava umha nova forma de alienaçom e como a sociedade soviética se movia ideologicamente para ocidente com um “bem-estar” baseado na suba dos preços do petróleo com o que os dirigentes do “socialismo realmente existente” tentavam aplacar os desejos de democracia e mudança do proletariado. Assim, cantantes occidentais como Julio Iglesias fôrom qualificados como promotores do neofascismo19.

Ao tempo em ocidente nascia o anti-Prometeu. O neoconservadurismo de Reagan e a utopia reaccionária ultraliberal eram mostras disto. Umha proporçom surpreendente da primeira camada de intelectuais neocons procediam da revista The Public Interest, fundada por antigos trotskistas como Irving Kristol e Daniel Bell em 1965. Bell seria precisamente um dos fundadores do pós-modernismo com o que sob o disfarce da morte dos metarrelatos emergia umha salva de palmas ao capitalismo do livre mercado extremo e ao imperialismo norte-americano a partir da década de 90 camuflado sob o eufemismo, asséptico e neutral, de globalizaçom. Do trotskismo ficava o “internacionalismo”, a fé na luita, a ideia utópica dumha sociedade pura ao fim da história (sancionada por Francis Fukuyama), o ódio a realpolitik estalinista, e, sobretodo, a confiança romántica no poder as ideias e a moralidade para mudar o mundo.

Junto a estas bases morais a contrarrevoluçom capitalista tinha outras bases racionais no credo ultraliberal. O economista Milton Friedman, antigo partidário do New Deal, popularizou umha visom da economia baseada no laissez-faire no ronsel de Friedrich Hayek, quem defendia umha “democracia limitada” e umha “liberdade” a mantenta restringida a liberdade de consumo (a distinçom que Chomsky tem feito entre liberty e freedom é muito reveladora a este respeito). Como assinala em Contra o pós-modernismo Callinicos após o desengano de 1968 unírom-se à luita contra o comunismo e ao assalto ao velho estado corrupto para implantar umha nova ordem baseada num liberalismo “revolucionário” que empregava métodos militares e mobilizadores de teor leninista20.

Prometeu hoje: Novamente encadeado?

O sonho prometeico volta ressurgir com força nos nossos dias. É a velha pantasma que percorre Europa e o mundo cada vez que se degradam as condiçons de vida das maiorias sociais, se estratifica e feudaliza a sociedade e se aplica um férreo e alienador controlo sobre o corpo social, convertendo o povo em massa através do binómio político-medíatico.

O fime Monanieba (Arrependimento) do director georgiano Tenguiz Abuladze é quiçais um dos poucos filmes complexos e cultos que fôrom um sucesso comercial. Estrenada em 1986, ao abeiro da glasnot' (transparência) de Gorbachev, é um vívido retrato do ambiente que se vivia ao começo da perestroika (reestruturaçom). Gorbachev incorporava-se assim à longa listagem de dirigentes que acreditava que era possível vigorizar o comunismo leninista atacando os “burócratas” conservadores obsessionados polo estatus, mas a diferença do Estaline dos anos vinte, do Mao da Revoluçom Cultural ou do Jruschov de finais de 50 e começos da década de 60 foi o único que chegou a conclusom que isso só era possível se se reduzia o poder do partido propiciando a destruiçom do próprio sistema ao socavar as bases do poder da burocracia e permitindo que remataram por efectuar sob Yeltsin a pilhagem e a partilha do público criando estados mafiosos e falidos.

Ao tempo que as brasas do lume encendido polo velho Prometeu de 1789 ou 1917 se apagavam a labareda dos contra-revolucionários ultraliberais atingia o seu explendor com a excepçom do desafio do EZLN em Chiapas na década de 90. No entanto, desde 2008 as conseqüências da utopia reaccionária ultraliberal som bem visíveis e as cadeias de Prometeu semelham que começam a aferrolhar-se. Evo Morales, a resistência da gerontocracia castrista, Hugo Chávez, Correa, etc. som mostras do espertar dos povos do mundo e de como o Império, o centro do sistema-mundo desde 1945 passou da crise-sinal do Vietnam à queda da sua hegemonia na rediçom dumha fanada belle époque eduardiana que atingiu o seu culmem com Bush II, mas que nom evitou que na disjuntiva entre canons e manteiga, como acontecera na URSS, se dispararam as desigualdades e o descontento da populaçom. A hegemonia ultraliberal e reaccionária nos centros do sistema-mundo capitalista nom fam alviscar contodo que surja um Prometeu num contexto em que eleiçom após eleiçom medra a extrema-direita entregue às directrizes da bancocracia e as instituiçons de governança global como o FMI ou o Banco Mundial, instrumentos do RDWS descrito por Peter Godwan.

A ideologia do novo capitalismo, o capitalismo do longo declínio, triunfou entre a geraçom do 68 com o acento posto mais na uniformidade cultural que na igualdade económica real e na fraternidade do comunismo romántico em que Prometeu conheceu a sua moderna safra. A Terceira Via foi a mostra mais evidente da desorientaçom e o fracasso da esquerda clássica, incapaz de recuperar-se da queda do muro de Berlim enquanto por toda parte do capitalismo erguia novos muros e impunha o seu TERROR mediante a fome e a opressom privatizando a auga e outros bens universais, destruindo a natureza, jogando à morte a mais de 1.000 milhons de pessoas e condenando a mais de 3/5 da humanidade a viver fora da história e do pretenso paraíso ultraliberal. Experiências como a de Sendero Luminoso enterrárom para sempre a desproporcionada violência do maoismo se bem até nas revoltas árabes, para nada hegemonizadas polo marxismo, se fixo meridianamente claro que sem violência e mobilizaçom nom é possível mudar o estado actual de cousas ao terem as elites que controlam o estado o monopólio no exercício da violência. Como dizia em 1969 umha tonada intitulada “A flor da giesta”:
O sangue do povo tem
rico perfume,
cheira a jasmim, violeta
geránios e margaridas,
a pólvora e dinamita.
CARALHO!
a pólvora e a dinamita.

Como di Priestland21 cumpre deixar claro que a tradiçom romántica participativa do comunismo – que se viu por última vez nas barricadas de 1968 e que semelha estar re-emergindo agora nalguns focos na Europa como em Grécia- voltará cobrar importáncia. A medida que se faga mais visível e grande o lanho das crises do capitalismo globalizado, os ideais marxistas de autenticidade e participaçom democrática acumularám mais e mais forças e poderá atingir-se umha nova massa crítica. Finaliza o seu extraordinário livro com estas linhas:
Era inevitável que a tentativa prometeica dos comunistas de combinar os projectos em conflito com a ciência moderna, a igualdde e a liberdade ficara desacreditado; mas nom deveriamos ignorar totalmente a Prometeu. A necessidade de resolver as questons que planteia esse mito parece hoje mais necessária do que nunca, se queremos decobrir novas vias para umha ordem social e ecológica mais igualitária e sustentável.

1Final do poema “A soluçom”: “Nom seria mais singelo que o governo disolvese o povo e eligira outro?”.
2Segundo o mito, Prometeu, um dos velhos titáns, roubou-lhe a Zeus, o máximo deus do Olimpo da Grécia clássica, e aos novos deuses olímpicos o lume para oferecer-lho como agasalho à humanidade. A sua ousadia imprimiu-lhe o conhecimento e o progresso à humanidade o que atemorizou os deuses. Zeus, como castigo por ter devastado a velha ordem – num paralelismo com o pecado original que leva a expulsar a Adám e Eva do paraíso– encadeia a Prometeu a umha rocha nas montanhas do Caúcaso onde todos os dias umha águia lhe rilha o fígado que se regenera eternamente.
3Gramsci, António (2009), tradución de Jordi Solé Tura, La política y el Estado moderno, Público: Barcelona, pp. 73-74.
4Service, Robert (2007), Camaradas. Uma História Mundial do Comunismo, Publicaçons Europa-América: Men Martins, 2008, p. 38.
5Priestland, David (2009), Bandera roja. Historia política y cultural del comunismo, Crítica: Barcelona, 2010, pp. 37-38.
6Op. cit., pp. 83, 85.
7Op. cit., pp. 17-20. Para Marx e Engels o resultdo da revoluçom proletária era efectivamente a ditadura do proletariado, mas sob esta expresom nom entendiam o governo dum partido revolucionário sobre a maioria, segundo o modelo jacobino ou blanquista, senom umha democracia em que o proletariado mediante assembleias populares empregaria as medidas que forem precisas, até violentas, para destruir o velho estado. É umha concepçom da ditadura comum desde a República romana, umha concentraçom do poder temporal que rende contas a umha cámara legislativa como era o Senado e que nom suspende o poder judicial. De facto, na Revoluçom francesa Robespierre fora tentado a assumir este poder temporal, embora o rejeitara.
8Op. cit. pp. 78-79.
9 Com a excepçom de Catalunya e outras partes da Península Ibérica até 1936 onde o comunismo libertário e o anarquismo da CNT e da FAI eram hegemónicos, daí que La Falange – o partido fascista espanhol– tomara as cores vermelha e negra tal e como o NSDAP tomara o termo “socialismo” da SPD e o KPD e a cor vermelha.
10Priestland, David (2009), Bandera roja. Historia política y cultural del comunismo, Crítica: Barcelona, 2010, pp. 95, 102-103.
11Op. cit., 107-108.
12Para a de 1848 e as suas semelhanças com as revoltas árabes veja-se o meu artigo “A primavera dos povos” disponível na rede.
13O autor teatral Ernst Tollen foi sem ir mais longe um dos máximos dirigentes da efémera república soviética de Bavaria em abril de 1919. No entanto, convem lembrar que entre os principais teóricos marxistas da altura existia umha simpatia maior para com Aleksandr Bogdanov e a asa esquerda dos bolcheviques que para com Lenine. Assim Paul Levy ou George Lukáks participárom da fanada aventura de Béla Khun em 1919 que durou tam só 133 dias. Khun pensava, a diferença de Lenine, que o PC devia disolver-se após a tomada do poder com umhas posturas muito mais radicais às de Lenine. Contodo, voltaria-se mais ortodoxo a partir de 1923, quando sai do prelo História e consciência de classe, e satirizaria-o Thomas Mann em 1924 no seu romance A montanha mágica, onde aprece sob o nome de Leo Naphta. A aventura de Khun receberia também um sério correctivo em 1929 com a apariçom de A doença infantil do comunismo de Lenine, onde mais umha vez se advogava polo centralismo e a disciplina em consonáncia com a vontade de controlar o comunismo internacional através da Comitern como ficou claro no seu II Congresso de 1920.
14Priestland, David (2009), Bandera roja. Historia política y cultural del comunismo, Crítica: Barcelona, 2010, pp. 95, 116-117.
15Op. cit. 144-145; 148. Precisamente umha das obras que mais influírom no jovem Estaline, seminarista georgiano, é Parricídio de Aleksandr Qazbegui, quem partilhava com Bakunine ser um aristócrata que idealizava os camponeses. O protagnista do romance, Koba, une-se a umha fraternidade de bandidos que vingam aos pobres, mas virtuosos montanheses derrotando os opresores oficiais russos e os seus colaboracionistas. Precisamente o recurso ao nacionalismo e a sua fusom com o leninismo som umha das marcas mais constantes em Estaline, especialmente a partir de 1942 com a Operaçom Barbarroxa do Terceiro Reich.
16Op. cit. 151-153: 156-158. O maior defensor da NEP foi Nikolai Bukharine e o seu primeiro opositor foi Leon Trotski em 1923 desde a Oposiçom de Esquerda, a asa mais radical dos bolcheviques, em contraste com a defesa da disciplina e dos oficiais tzaristas “conversos” durante a guerra civil. Kámenev e Zinóviev formárom a sua própria oposiçom em 1925 e um ano depois confluírom com Trotski na Oposiçom Unida que censurava a Estaline, Bukharine, Rikov e Tomski no seu empenho de manter a NEP (já esta era contrária, segundo os opositores, à luita de classes, a democracia igualitária e a revoluçom internacional). Entre julho e outubro de 1926 a Oposiçom Unida foi expulsa do Politburó e a finais de 1927 Bukharine e Estaline expulsárom-nos do partido no XV Congresso. Trotski seria expulso da URSS em 1928. No entanto, a derrota da Oposiçom Unida supujo a vitória de parte do seu programa que recuperou Estaline junguindo-as com o nacionalismo e a quimeira da revoluçom num só país. Quando Rikov, Tomski e Bukharine se oponhem (tinham a maioria no Politburó) Estaline acusa-os de “desviacionismo de direitas” e começa a “Grande Ruptura”.
17Op. cit., 167, 170, 172. Logo viria a bloshaia chistka, “a grande limpeza”, a mais grande dumha série de purgas que fôrom recorrentes no estalinismo. A chistka entrou na sua fase crítica a partir da primavera de 1937.
18Op. cit. 335-338.
19Op. cit. 404-405; 436-439.
20Dá medo só pensar na possibilidade de que o desprezo à política e as ideologias de esquerda detectadas em muitas acampadas com motivo do 23-M no Estado espanhol (presença de infiltrados e de membros da extrema-direita e do fascismo), perante umha inerme esquerda, poda servir, como em 1968, para criar umha nova fornada de intelectuais e quadros conservadores e a desmobilizaçom completa e absoluta da mocidade durante mais umha década.
21Priestland, David (2009), Bandera roja. Historia política y cultural del comunismo, Crítica: Barcelona, 2010, pp. 561-562.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

O roubo na educaçom

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Nos últimos decénios assistimos no Reino de Espanha a um progressivo deterioro da sanidade e da educaçom da mao da prevalência das doutrinas ultraliberais, bem no rosto "amável" do PSOE bem no punho-de-ferro dos neocons como Esperanza Aguirre ou aqui, na Galiza, o "Habichuela".

A nova lei de família (analisada aqui), a fiçom de "que os pais escolham" como se forem clientes num hipermercado, as advertências de que o co-pago sanitário está aí e asseveraçons do corte de que "porque temos que pagar o fracasso escolar dos demais" que se ouvem em Intereconomia, Veo 7 e outros foros da extrema direita celtibérica dam boa conta do que falamos. Como afirmava esta semana numha palestra Xosé Manuel Beiras vivemos num estado de direitas, nom de direito, nom a Constituiçom de 1978 suspendida na prática na sua totalidade -até na soberania nacional que agora exercem "os mercados", quer dizer, Emilio Botín, Tritchet e companhia. 

A ditadura fascista chefeada por Franco foi fundamentalmente umha ditadura de classe. No eido educativo daqueles quarenta anos venhem em boa medida os déficits da educaçom do Estado espanhol, que só figérom agravar-se a medida que avança a hegemonia da ideologia ultraliberal. O Reino de Espanha tem um dos níveis educativos mais baixos da UE com 60% da populaçom que apenas tem um nível educativo primário ou nem isso. Em 1975 esta cifra alcançava 85% com um gasto educativo que supunha tam só 1'7% do PIB. Estes dados só conhecem parangom em Grécia e Portugal, estados que também sofrêrom naquela altura regimes totalitários semelhantes. 

Este gasto público topa-se hoje (4'4% do PIB) por baixo já nom só da média dos membros da UE-15 (5'2%), mas também dos "novos" como Polónia (5'6%), Letónia (5'8%), Estónia (5'7%), Lituánia (5'9%). Ao invês do que afirmam os altifalantes da ideologia ultraliberal (supostos ténicos e expertos) a equidade e a eficiência nom estám confrontadas, mas, a contrário, a primeria é conditio sine qua non para a segunda. Isto quando a percetagem de crianças e moças e moços escolarizados é inferior ao resto da UE.

O déficit no gasto público alcança proporçons pornográficas no ensino superior, especialmente no terceiro ciclo que forma especialistas, professores e investigadores. A inversom é de 1% do PIB face 1'15% na UE-15 - isto antes da "austeridade". Deste jeito, na Galiza nem tam sequer se atinge1% do PIB, e a Junta reduziu mais ainda o financiamento das universidades numha situaçom caótica que aponta a umha multiplicaçom das taxas como aconteceu em Inglaterra e Gales em 2010. O alvo de chegar a 1% está fixado retoricamente para além do 2014 segundo Núñez Feijoo.

E isto vê-se agravado porque a percentagem de populaçom estudante universitária é de 14% face o 10% da UE-15, com a conseguinte descida do gasto público por estudante, um dos mais baixos da OCDE. De por parte, isto vê-se agravado por dous factores: a mercantilizaçom da universidade com a devida subida das taxas dumha banda; e, por outra banda, um reducíssimo gasto público em bolsas que explica porque apenas 8% dos universitários som filhos da classe trabalhadora nom qualificada e que estudaram até a chegada de Bolonha polo geral diplomaturas e nom licenciaturas. Estas ajudas, aliás, irám-se reduzindo ao tempo que se apostará por créditos, quer dizer, por umha implosom social a meio-longo prazo.

O gasto público em primária e secundária apenas representa 2'9% do PIB face 3'6% da média dos estados da UE-15. As horas lectivas por ano e aluno na secundária som 559, enquanto na UE-15 aom 678. Este diferencial ao longo secundária supom um ano menos de ecucaçom que o promédio da UE ou até dous se nos cotejamos com Escócia, Bélgica, Alemanha ou Holanda. Isto ajuda a explicar porque os informes sobre educaçom situam o nosso estudante promédio um ano por baixo do que na UE. Nas escolas privadas há umha hora mais polo que este desfase nom se dá.

Porém a privada é um grande problema de por si. Nengum outro estado da UE-15 tem umha percentagem tam elevada de estudantado na privada (filhos da burguesia, pequena burguesia e classes professionais de renda média e média alta; entre 30-35% da populaçom) e nengum outro estado lhe dedica tantos fundos (0'60% do PIB face 0'36% do PIB). A privada conta com mais recursos do que a pública ao contar também com subsídios públicos, enquanto nem som de graça, selecionam o alunado, discriminam os migrantes, etc.

Um segundo efeito disto é que esse 30-35% da populaçom nom exerce assim presom, através de aparatos políticos e a mídia, para melhorar o ensino público e a inversom educativa. A contrária som foco de associaçons reacionárias que sob a excusa de que "os pais decidem" advogam por um sistema segregacionista, privativo e privado. Já na etapa Aznar o gasto público em educaçom desceu e 4'7% do PUB em 1996 a 4'4% do PIB em 2002 ao tempo que aumentava a aposta pola privada. E esta é umha constante que a direçom económica de Solbes e Salgado nos governos de Zapatero longe de mudar continuárom com a inestimável ajuda do PP nas comunidades autónomas. Nom extranha, já que logo, que os informes PISA venham incidindo que o Estado espanhol é um dos estados onde a clase social dos pais determina as possibilidades educativas da sua prole e reproduzindo assim a escola a polarizaçom social. 

Aliás, estudos realizados nos EUA demonstram que a falta de diversidade social nas aulas evita que o estudantado se conforme um conhecimento verdadeiramente representativo do conjunto da sociedade, algo que sim acontece no melhor sistema educativo, o finlandês, onde 3% do estudantado está apenas na privada.

O que nom vem os apologistas da privada é que a qualidade da educaçom marca-a a escola pública. Umha escola pública deficiente e com escassos recursos fará que a privada nom tenha que fazer um gasto muito melhor para mostrar-se como "a melhor", quando relamente apenas é um pouco menos má do que a pior. Todos perdem, a começar polo futuro económico económico e democrático do Reino de Espanha. Algo que os neocons nunca dim é que - como recolhe PISA em 2000- existe umha relaçom meridiana entre o gasto total em educaçom (público e privado) por estudante e a qualidade da educaçom, medida pola comprensom leitora e o conhecimento matemático.

Finalmente, expor que a nossa condiçom de socialistas nom resignados (do socialismo histórico da Ilustraçom) obriga-nos a advogar polo estabelecimento dumha escola pública única para todas as classes sociais, na tradiçom laica republicana, onde a escola seja a instituiçom básica para a integraçom social. Todo o contrário que a defunta Constituiçom espanhola de 1978 que sanciona umha escola privada para os ricos (subvencionada polos pobres) e umha cada vez mais deficiente escola pública para as filhas e os filhos das classes trabalhadoras. Os dados som os dados.



terça-feira, 12 de abril de 2011

O "resgate" de Portugal: um "botín" para a bancocracia espanhola

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 Encontra-se fatalmente condenado pola organizaçom económica da sociedade nos países mais civilizados de Europa, reduzido inteletual e moralmente tanto como a sua condiçom material, ao mínimo dumha existência humana, encerrado na sua vida como um prisioneiro na sua prisom, sem horizontes, sem saída, sem porvir mesmo, se se acredita nos economistas, o povo deveria ter a alma singularmente estreita e o instinto achatado dos burgueses para nom experimentar a necessidade de sair desse estado; mas para isso nom há mais que três meios, dous deles ilusórios e o terceiro real. Os dous primeiros som o burdel e a Igreja, a libertinagem do corpo e a libertinagem da alma; o terceiro é a revoluçom social. De onde concluo que esta última unicamente, muito mais ao menos que todas as propagandas teóricas dos livrepensadores, será capaz de destruir até os mesmos rastos das crenças religiosas e dos hábitos de desarranjo no povo (...), a revoluçom social unicamente terá o poder de cerrar ao mesmo tempo todos os burdeis e todas as igrejas. (1)
Quando se fazia evidente o assalto final ao Estado português por parte da bancocracia e do fascismo financeiro global numerosos comentaristas apresurárom-se a dizer que o Estado espanhol rem tinha a ver com o Estado português. Porém, agora já começam a trocar de opiniom, toda vez que Portugal parece que cairá sob a bota do FMI, ao serviço do dólar e dos EUA (o que Peter Godwan denominou o Regime Dólar-Wall Street, RDWS), e dumha UE ao serviço de Alemanha, como o demostrou a recente suba do tipo de juros impulsada polo BCE, presidido por Trichet (que anunciou que nom será a última pois Alemanhá já saiu da "crise").

Umha destas vozes de mal agouro, que se irám fazendo mais e mais evidentes nos próximos meses exigindo novos recortes, saia hoje no Financial Times (aqui). Como nos lembrava o Bertolt Brecht "que é o roubo dum banco em comparança com fundar um?". Isso ou umha agência de ranting para praticar o terrorismo financeiro impunemente e qualificar como valor seguro a Goldman Sachs o dia antes da sua queda. Novamente Marx acertado coma a sua teoria do valor.

A armadilha do velho lema necon TINA ("nom há alternativa") é dupla. Dumha banda exigem-se recortes para que os que "vivemos por cima das nossas possibilidades" nos apertemos "o cinto" -enquanto os lucros do grande capital se disparam- e doutra banda quando "os mercados" - entes etéreos sem forma nem responsabilidade perante a lei-  o decidem os estados entram em falência e o "resgate" impom novas e ainda mais lesivas "medidas de austeridade".

Todavia, som estes os caminhos do ultraliberalismo.Sempre as mesmas receitas, sempre as mesmas desfeitas, a "destruiçom criativa" do capitalismo. Até o tam invocado pai do liberalismo, Adam Smith, que nada tinha de capitalista, renegaria de tam infame e ilógica política económica. Pura ideologia neocon que se apresenta como a única via possível sancionada por ténicos e expertos do mais seleto. Assim, a ideologia ultraliberal apresenta-se como ciência, quando nom como dogma, até erguer-se no sustento religioso, na metafísica do poder, para esmagar a milhons de cidadaos de todo o mundo. Noam Chomsky atribui-lhe a Smith um papel destacado dentro dos "teóricos da conspiraçom" - na expresom atual dos sacerdotes do poder- já que sustentava que  "os princiapais arquitectos" da política global, "os nossos mercaderes e frabricantes", garantizárom que "se atenda com maior particularidade" aos seus interesses, por "perjudicial" que fora o impato sobre o próximo, em especial sobre as vítimas da sua "selvagem injustiza" na Índia [colónia do Império británico na altura] e outras regions, mas  até também sobre a populaçom nacional mesmo. (2)

O Estado português, após o teatro do PS, recorre ao FMI e a UE pedindo ser resgatado. É o maravilhoso do ultraliberalismo, que as próprias vítimas pedem mais e mais castigos. Nom é de extranhar que os inquéritos apresentem agora a Pedro Passos Coelho, o candidato da direita, como ganhador das vindouras eleiçons. Os mesmos mercenários da bancocracia com distinto fato. A cidadania europeia, já nom digamos a dos "atrasados" PIG's, é incapaz de discernir, a sua cultura política e democrática é baixíssima, e a actuaçom dos sócio-liberais adelgazou a esquerda e reforçou a criaçom de "sentido comum" reacionário, da mao do binómio político-mediático. Lisboa receberá 90.000 milhons de euros que engrossarám ainda mais especuladores e bancos de todo tipo. Dessa quantidade dous terços sairiam do fundo de resgate da UE -criado em maio de 2010 e dotado com  750.000 milhons de euros- e o terço restante do FMI.

Enquanto Portugal entra em falência e cai nas maos de Saturno, que devora um a um os estados da periferia da Europa, nengum todólogo nos lembra na TV que a banca privada espanhola sairá beneficiada do "resgate", a contrário que a maioria da cidadania do Reino e que o próprio estado espanhol. A banca espanhola detenta 6.807 milhons de dívida pública portuguesa. Desse total, a entidade presidida por Emilio Botín, o Santander, conta com 5.118 milhons de euros o que apenas representa 0'45% do total de ativos da entidade. Nova Caixa Galicia (à que denominamos amistosamente NO.CA.GA.) ocupa o 7º posto com 29 milhons (0'004% dos seus ativos totais).

No entanto, que ninguém acredite que é aí onde está o negócio. Os 6.807 milhons de euros em dívida pública que tenhem os bancos espanhóis (Santander, Popular, BBVA, Pastor, Mare Nostrum, Sabadell, Nova Caixa Galicia, Banco Base, Caja España-Duero...) som umha ínfima parte em comparança com os 63.000 milhons de dívida e instrumentos financeiros, entre eles os CDS (polo que apostavam contra a própia dívida que adquiriam num lucrativo, desregulado e surrealista negócio), que atesouram. Em resumo, a banca espanhola tem umha exposiçom total de 79.000 milhons de euros, sendo o principal acredor do estado português e, já que logo, a máxima beneficiária do resgate. Eis os deliqüentes que esganarám o estado social luso e jogarám no lixo as esperanças de milhons de irmaos portugueses. Lembremos que o montante total estimado do resgat é de 90.000 milhons de euros, dos que grande parte irá parar a mastodontes financeiros como o império de Botín, para que podam seguir especulando desta volta contra o Estado espanhol, o italiano, o belga e todo o que se tercie.

Numha análise recente feita nos bancos de Wall Street e nas firmas de seguros, sobre o total do volume de negócios, observou-se que estes batêrom récordes em 2010 com 5'7% de crescimento sobre o valor negociado em 2009, 135 milhons de dólares. Ainda com estas, nos EUA a taxaçom sobre os ricaços despencou. De 1940 a 1980 o percentual de contribuiçom do imposto de renda dos mais ricos era no mínimo 70%, mas na década de 50 era de 91%. Hoje, em fim, é de 35%. E som estes os que nos exigem ao resto mais e maior "austeridade" (3).

O "resgate" é umha nova folha em branco aos especuladores, aos ladrons das finanças globais. Dos outros estados "resgatados" da Eurolándia tiramos o panorama negro que lhe espera a Portugal. A economia helena está em recesom e o país em pé de guerra. Em Irlanda o recente resgate já se traduziu numha contraçom do PIB - da ordem polo de pronto de 1%-. Em portugal subirám-se os impostos indiretos como o Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA), baixarám-se ainda mais os ordenados, rebaixarám-se os benefícios fiscais, congelarám-se as aposentadorias - já de por si míseras- e o subsídio de desemprego sofrerá catastróficas "modificaçons".

Destarte, o mais dramático ainda e que estas políticas de "austeridade" (austeridade para o que morre de fame e opulência para o que nada em dinheiro -assim a entendem os promotores do "socialismo dos ricos", como Ramonet lhe chama) aplicam-se nos estados que contavam com um welfare state mais subdesenvolvido e raquítico, ou seja, em Grécia, Irlanda,Portugal, Espanha e Itália. E também em Reino Unido, desde os oitenta, da mao da Terceira Via de Blair e Browm e com mais força ainda desde a chegada do tandem Cameron / Clegg. É curioso resaltar que a dívida pública do estado británico é imensa quando tem um dos estados sociais mais raquíticos de Europa, por nom dizer que no Reino Unido apenas sobrevive um estado assistencial. Isto pode explicar em grande parte a razom do estancamente já quase crónico da taxa de emprego do Reino Unido -antes da crise pois esta disparou lá também o desemprego- face a Holanda ou Suécia, com um desemprego muito inferior aos do Estado francês ou do Estado alemám. O ultraliberalismo é umha grande mentira de "ténicos" sem nengum escrúpulo nem vergonha na cara.

Note-se igualmente que a direita mediática embeste um dia após outro contra o estado do bem-estar, por vezes empregando a demagogia mais extrema e burda. Vaiamos por partes. A percentagem que trabalha nos serviços do welfare state no Reino de Espanha (sanidade, educaçom e serviços de ajuda às famílias) representa 6% em comparança com 17% de Suécia ou o 11% da média UE-15. Isto é bem sabê-lo quando se fala de descer o número e o ordenado dos funcionários como se eles foram os causantes da "crise" e nom mais umhas vítimas.

O gasto público em proteçom social (aposentadorias, mais os serviços já referidos - onde se incluem centros de dia, residências públicas, prestaçons por desemprego, etc.) representou apenas em 2002 19'7% face o 31'3% de Suécia ou o mais modesto 19'7% da UE-15. Por outras palavras, o mais baixo da UE só por cima de Irlanda. Esta deficiência traduze-se numha sobrecárrega para as famílias - a dívida das famílias (e a dívia privada em geral) é escandalosametne no Reino de Espanha sendo um dos principais problemas "estruturais" da sua economia- e especialmente para as mulheres que tenhem que cobrir, com trabalho nom remunerado a mais das vezes, as insuficiências do estado de bem-estar (mais bem de permanente mal-estar) no Reino de Espanha. Assim, a dívida das famílias na Galiza e no Estado é astronómica.

Como Vicenç Navarro demonstra (4) esta situaçom vem da ditadura fascista encabeçada por Francisco Franco e que foi, antes de mais, umha ditadura de classe. Quando morre entubado o marrao de tromboflebite o estado de bem-estar do Reino de Espanha era o menos desenvolvido de Europa e o estado só gastava 14% do PIB em proteçom social (face 22%  do promédio da futura UE-15). Em 1975 a mortande infantil, a capacidade aquisitiva das famílias, o nível educativo, a integraçom laboral das mulheres só competiam com os indicadores de Portugal e Grécia, que sofreram ditaduras semelhantes. 

No entanto, desde 1975 inicia-se umha lenta convergência com Europa, especialmente sob os primeiros governos de Felipe Gonzáles (até que Solbes chega a ser ministro de economia). Em 1993 a divergência volta manifestar-se e continua durante o governo Aznar-Rato, quando sobre a bolha do tijolo e o cimento se dizia que o Estado espanhol ia desprazar a Alemanha como "locomotora europeia". Nesse intervalo umha nova armadilha ia cair sobre a classe trabalhadora com conseqüências nefastas. A primeira imediata, umha forte inflaçom e a aceleraçom da especulaçom imobiliária pola necessidade de lavar o dinheiro negro. A segunda nom imaginada por muitos  naquela altura, mas hoje evidente: a perda de soberania monetária e a subalternaçom definitiva à  grande banca e ao estado alemám, o seu gendarme.

Os maiores ingresos do Estado espanhol até antes de explodir a crise financeira de 2008, resultantes dumha maior carga fiscal -regressiva nom progressiva- invirtiu-se em reduzir o déficit orçamentar do Estado e nom em paliar o déficit social. O objetivo era cumprir com "os alvos de Europa", como agora o é a "austeridade". Alvos e dogmas que nunca fôrom referendados democraticamente, mas que decidem unilateralmente os nossos khadaffis. Assim, em 2002 o gasto em proteçom social por habitante de Suécia duplicou praticamente o do Estado espanhol. Este é a realidade do "obeso" welfare state celtibérico ao tempo que a economia submergida atinge 20%.

Nos PIG's e na Grande Bretanha pagam estas carências crianças, reformados e mulheres. Nom é por acaso que umha de quatro crianças portuguesa seja pobre. Nom é por acaso que no Reino Unido acontece o mesmo com um de cada três (o seu número multiplicou-se por três nos últimos 25 anos). Tampouco é resultado do fado que o Reino de Espanha e a Grande Bretanha sejam dous dos estados com menor mobilidade social, porque as classes seguem existindo, com a maior força desde o fim da II Guerra Mundial. Umha mobilidade social estancada que bate com a retórica das "oportunidade" para a toda a mocidade independentemente da sua classe social. Já até para ser escravo é necessário passar pola universidade. Portugal e Grande Bretanha contam aliás com o maior lanho entre  10% mais rico da populaçom e 10% mais pobre. Nos EUA  1%  mais rico da populaçom ganha tanto como cem milhons de pobres. Ainda assim, dim que vivemos por cima das nossas possibilidades e que é preciso poupar. Nom viria mal que os mercenários da bancocracia, ultraliberais e sócio-liberais, lembraram que a soberania reside no povo e o que dizia o semánario The Economist - liberal nom comunista- (27-10-2001):
Umha primeira liçom que os governos deveriam aprender é que o gasto público tem um impato muito maior que a reduçom de impostos. O Banco Federal Estadounidense (Federal Reserve Board) calculou que um incremento do gasto público dum dólar para produzir bens e serviços estimula três vezes mais o PIB ao cabo dum ano que um dólar otido mediante um recorte de impostos.

Finalmente, o resgate de Portugal é umha notícia nefasta para a Galiza, já que Portugal é o nosso principal parceiro comercial, a pesar de que a Galiza vive culturalmente mais de costas ao seu país irmao do que a Estremadura espanhola. Porém ainda mais desastroso se virará a intervençom no Reino de Espanha, mais e renovadas medidas de "austeridade" (sempre para os mesmos), quando as nossas aposentadorias som as mais baixas do estado; quando o Xacobeo, que nos ia tirar segundo o PP da recesom, foi um fracasso; quando desde a chegada do Habichuela lideramos a destruiçom de emprego... Sobre as nossas costas engrossam seus lucros, esta é a única verdade inalterada em Grécia, Irlanda, Portugal, Galiza... É necessária umha revolta cívica para que o trabalho nom esteja condenado a continuar eternamente preso no círculo vicioso do capital.

Manifesta-se novamente a veracidade do modelo teórico do marxismo, aquele que di que a base económica é a que determina em última instáncia todo o que vem por cima dela, portanto,  dumha banda as relaçons sociais com conteúdos económicos, que som quase sempre relaçons de produçom e distribuiçom, e mais as relaçons sociais com esses conteúdos; e da outra, embora nom seja mecanicamente como Gramsci tem demonstrado, a consciência social da naçom galega, a ideologia, as pautas culturais, etc. Galiza como naçom sem estado topa-se ainda mais desprotegida na sua base económica e vulnerável frente os topenos e cotifons do fascismo financeiro. Carecer dumha superestrutura jurídico-política e dum marco institucional político-administrativo pode parecer hoje vendo a Portugal, Grécia ou Irlanda cousas de pouca importáncia. Olhar assim seria como aqueles que dim que o galego só serve "para andar por casa" porque sempre botam do país polo Padornelo e nunca por Valença do Minho. Se hoje o Branhas analisara esta crise e nom a do fim do XIX a palavra de ordem seria "como em Islándia, como em Islándia; Galiza, ergue-te e anda!".

Notas
(1) Mijail Bakunine: Deus e o Estado. As traduçons de todas as citaçons corrêrom pola minha conta.

(2) Citado por Noam Chomsky no seu livro Estados falidos. Manejamos a seguinte ediçom castelhana:  Estados fallidos. El abuso de poder y el ataque a la democracia, Barcelona: editorial sol90-Público,  2010, p. 139. As citas originais de Adam Smith podem rastejar-se no livro IV de A riqueza  das naçons, nos capítulos quatro e sete. Este domingo, David Casassas apresentava um livro sobre Smith em Barcelona um dia depois da consulta popular organizada pola sociedade civil catalá a prol da independência. O livro de Casassas conta com um limiar e Antoni Domènech disponível em Sin Permiso e na apresentaçom participou o inteletual e político galego Xosé Manuel Beiras Torrado.

(3) Vid.Robert Reich (2011): "Por que os EUA devem aumentar taxaçom da riqueza" em http://revoltairmandinha.blogspot.com/2011/04/por-que-os-eua-devem-aumentar-taxacao.html.

(4) Vicenç Navarro (2006), El subdesarrollo social de España. Causas y consecuencias,  Barcelona: editorial sol90-Público, 2009, pp. 34-40.

domingo, 3 de abril de 2011

Á REVOLTA ENTRE A MOCIDADE: O darwinismo social militarizado (recunque)

Á REVOLTA ENTRE A MOCIDADE: O darwinismo social militarizado (recunque): " Antom Fente Parada. Este artigo é umha continuaçom dum outro artigo anterior que podedes consultar aqui. Ao meu ver, os 'nazis de are..."

segunda-feira, 28 de março de 2011

O darwinismo social militarizado

Á REVOLTA ENTRE A MOCIDADE: O darwinismo social militarizado: "Antom Fente Parada ... o mundo está aí, com os efeitos imediatamente visíveis da posta em prática da utopia ultraliberal: nom apenas a mis..."

quinta-feira, 24 de março de 2011

"Multiculturalismo" e neolíngua, até quando?


Umha achega interessante sobre o multiculturalismo, que Merkel via fracassado recentemente, vem da mao de Pierre Bourdieu e Loïc Wacquant num artigo  intitulado"Una nueva vulgata planetaria: la lengua franca de la revolución neoliberal" e que nos lembra poderosamente à neo-língua orwelliana brilhantemente descrita no romance 1984. O artigo em questom foi escrito no cabo do século XX e começos do século XXI e ainda nom advertia a queda da hegemonia norte-americana e, com ela, a queda da primazia absoluta de Ocidente e a apertura dumha etapa de caos sistémico. Porém nom é disso do que queria falar agora.

Simplesmente a minha vontade é partilhar algum dos aspectos debulhados sobre "pensares" dos autores de A miséria do mundo e de Os cárceres da miséria neste artigo. Duas obras que cito porque lembram a aquela dialéctica entre Marx e Proudhom da Filosofia da miséria e da Miséria da filosofia

A violência simbólica, tam naturalizada e arraigada que já nom é reconhecida como tal, é segundo Bourdieu umha forma profunda de dominaçom. Lá reside a eficácia da linguagem ultraliberal. Estados Unidos "mundializa" a sua realidade pós-keinesiana, manifesta na ssuas políticas económicas e sociais e também nas suas polémicas universitárias. (...) Umha extranha neolíngua: "mundializaçom" e "flexibilidade"; "governabilidade" e "empregabilidade", "underclass" e "exclussom"; " nova economia" e "toleráncia cero"; "comunitarisomo", "multiculturalismo" e os seus coirmaos "pós-modernos", etnicidade, minoria, identidade, fragmentarizaçom, etc.
Fora de todo isto ficam termos como capitalismo, classe, exploraçom, dominaçom, desigualdade, etc. Estamos, já que logo em presença dum imperialismo simbólico onde em nome da "modernizaçom" se ceifárom desde a década de setenta conquistas sociais e económicas que custaram cem anos de luitas socias. Bourdieu identifica claramente umha forte violência simbólica neste imperialismo cultural baseado na imposiçom dumha comunicaçom forçada através de poderosos altifalantes - os mídia- que imponhem a sua versom dos factos e a dominaçom. Nom é por acaso que se universalizam os particularismos vencelhados com umha experiência histórica singualar, tentando que sejam irreconhecíveis como tais -ou seja etnicamente neutros- e reconhecíveis no entanto como universais.

Para este fim som muito importantes as instáncias de governança global tais como o Banco Mundial, a Comissom europeia, a OCDE, think tanks (como o Manhattan Institute de Nova Iorque, o Adam Smith insititute de Londres, a Foundation Saint-Simon de Paris, a Deutsche Bank Fundation de Francoforte, a FAES de Madrid e assim seguido), fundaçons de filantropia, escolas do poder (London School of Economics em Inglaterra, Harvard Kennedy School of Government nos EUA, Institut d'Etudes Politiques na França...) e, em fim, a grande mídia. Em definitiva, falamos do binómio político-mediático produtor dessa nova língua franca e universal a neolíngua do pensamento totalitário ultraliberal. 

Boa parte da esquerda, também no artigo que serve de base a esta postagem, felizmente fala dumha sociedade estadounidense "da era pós-fordista e pós-keinesiana". Também aqui há desorientaçom e impostura intelectual ao confundir-se a sintomatologia do doente com a causa da doença, ou seja, a contrarrevoluçom ultraliberal iniciada nos setenta como fugida para adiante - perante a queda da taxa de ganho e outros factores que agora nom entrarei a analisar- dentro do beco sem saída do longo declínio que conduziu à crise da hegemonia (que Beiras situa em 1973) e ao caos sistémico do sistema-mundo capitalista actual (iniciado com a grande crise de 2008 equivalente a de 1873 que marcou o devalo da hegemonia británica. Para recuperar a taxa de ganho recorre-se a umha financiarizaçom extrema da economia (cujas bolhas produzem depresons profundas, recesons, estagflagçons e, em definitiva, activam um rodopio infernalque se retroalimenta a si próprio); ao desmantelamento do welfare state (educaçom, sanidade, aposentadorias, etc.), que era o pacto entre capital e trabalho estabelecido após 1945 na procura da pax social e a contençom do "comunismo"; hipercrescimento do estado penal - aqui Wacquant sentou cátedra-; esfarelamento do movimento sindical, da negociaçom colectiva e da autoorganizaçom dos trabalhadores (do que se deriva maior  desemprego, multiplicaçom da exploraçom, e da autoexploraçom, menores ordenados e maiores desigualdades entre operários) und so weiter.

Nesta cojuntura, Bourdieu e Wacquant identificam dous termos chave para a neolíngua que som bem familiares para qualquer pessoa que decida hoje enfrontar-se à docência. Falamos, como nom, do "multiculturalismo" e da "mundializaçom" ou "globalizaçom" na escola anglo-usamericana.

Quanto ao primeiro:

Este termo foi importado a Europa para designar o pluralismo cultural na esfera cívica [na sociedade civil], em tanto que nos EUA remete para - no mesmo movimento que a oculta- a contínua exclusom dos negros e a crise da mitologia nacional do "american dream" de "oportunidades para todos"; essa crise é correlativa à falência que afecta o sistema de ensinança pública em momento em que a competência polo capital cultural se intensifica [assim como a compotência intercapitalista que trai consigo a queda da taxa de ganho] e as desigualdades de classe aumentam de maneira vertiginosa.

O adjectivo tende um véu sobre essa crise, confinando-a artificiosamente ao microcosmos universitário e exprimindo-a num registo ostensivelmente "étnico"; mas, na realidade, a sua verdadeira cerna nom é o reconhecimento das culturas marginalizadas polos cánones académicos, mas tamém o aceso aos instrumentos de (re)produçom das classes médias e superior - como a universidade- num contexto de retirada activa e massiva do Estado.

O "multiculturalismo" estadounidense nom é nem um conceito, nem umha teoria, nem um movimento social ou político, embora pretenda se todas essas cousas à vez. É um discurso-pantalla (...). É, aliás, um discurso estadounidense - a pesares de que se pensa e se apresenta como universal (...).

Ou seja, que "o multiculturalismo" leva a todos os lugares aonde se exporta esses três vícios do pensamento nacional estadounidense que som: a) o "grupismo", que cousifica as divisons sociais canonizadas pola burocracia estatal como princípio de conhecimento e de vindicaçom política; b) o populismo, que substitue a análise das estruturas e dos mecanismos de dominaçom pola celebraçom da cultura dos dominados e dos seu "ponto de vista", elevado ao rango de proto-teoria fundamental; c) o moralismo, que ao obstaculizar umha análise materialista racional do mundo social e económico, condena a um debate sem fim nem efeitos sobre o necessário "reconhecimento das identidades", quando na triste realidade de todos os dias o problema nom se situa para nada nesse nível. (...) Dúzias de milhares de crianças das classes e etnias dominadas som expulsas das escolas primárias por falha de vagas (25.000 este ano [naquela altura entenda-se] apenas na cidade de Los Ángeles); e só um de cada dez jovens procedentes de moradias com ingresos inferiores a 15.000 dólares anuais accede à universidade, contra 94% dos filhos de famílias cujos ingresos anuais superam os 100.000 dólares.

No tocante à "globalizaçom":

Poderia fazer-se a mesma demonstraçom a respeito da noçom fortemente polesémica de "mundializaçom". O resultado - se nom a funçom- desta noçom é vestir de ecumenismo cultural ou de fatalismo económico os efeitos do imperialismo estadounidense (...).

[...]

(...) a colonizaçom mental que se opera através da difusom destes conceitos apenas pode levar a umha espécie de "consenso de Washington" geralizado e até espontáneo, como se pode ver hoje em matéria de economia, de filantropia ou de gestom da ensinança- Esse duplo discurso baseado na crença remeda a ciência, invistindo o fantasma social dominante com a apariencia de razom (...).

Em definitiva, o imperialismo ultraliberal realiza-se intelectualmente num pensamento único onde emergem duas novas figuras do produtor cultural. A primeira dela som os os think tanks, que elaboram documentos de alto conteúdo técnico [como os que os empresários espanhóis apresentam cada pouco a Zapatero ou a El-rei], redactados na medida do possível em linguagem económica e matemática. Depois venhem os "todólogos", tránsfugas do mundo universitário feliz ao serviço dos dominadores. A missom destes é dar forma académica aos projectos políticos na nova aristocracia financeira do estado e do capital. Toda umha neolíngua que fai que os gendarmes da bancocracia podam viver tranqüilos enquanto alienam os povos de toda a parte. A neolíngua é o Pangloss do poder, ou seja, o Cándido que descrevera em 1759 Voltaire; o cidadao alienado incapaz de render-se às evidências mais indiscutíveis e ainda mais inerte para indignar-se e reagir. Écrasez l'infâme!