Palavras novas e velhas

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Mucha policia, poca diversión.

"A crise actual nom é só umha crise económica, é umha crise 'política e moral', um crise de civilizaçom inerente, às contradiçons próprias da lei do valor. Como já o preveu Marx, a reduçom de todo, incluso das relaçons sociais, a tempo de trabalho abstracto, a medida que inça a socializaçom do trabalho e medra a incorporaçom do trabalho intelectual ao processo de trabalho, devem cada vez mais miserável e irracional. Esta crise social e ecológica traduze-se em fenómenos de exclusom e desemprego massivo devido à incapacidade do mercado para ordear a longo prazo as relaçons da especie humana e as suas condiçons de reproduçom naturais", Daniel Bensaïd: Cambiar o mundo (2004).



Já é oficial. A taxa de desemprego no Reino da Espanha da II Restauraçom bourbónica atingiu a cifra de 20'5%, percentage inédita desde o quarto trimestre de 1997 e isso tendo em conta que os diversos governos levam anos inventando requisitos para adelgaçar as cifras de parados em centenas de milheiros. De por parte cada vez a "espantada" grega galopa mais perto do Estado espanhol: Grécia aguarda chegar aginha a 20% de desempregados que aqui já existem, temos um nível de dívida catalogado pola agência Standard & Poor's mais negativamente do que em anteriories ocasions e recomendando o de sempre "flexibilizar o mercado de trabalho". Mais indicadores poderiam adjuntar-se como que a dívida familiar do Estado espanhol já supera a grega e representa 87% do total do PIB, umha bagatela vamos.


No último ano o número de desempregados aumentou em 602.000 pessoas e chega a 4'6 milhons de pessoas, contando já com um 1'3 milhons de lares onde todos os seus integrantes estám desempregados, 230.000 mais do que fai um ano e 78.500 mais do que no trimestre anterior. Até quando? Os parados de longa duraçom, mais dum ano desempregados, incrementárom-se em 72% e atingem já a cifra de 1'7 milhons de pessoas. As taxas de desemprego juvenil (20-24 anos) roçam 40% e poderiam até superar essa cifra, 604.200 desempregados a dia de hoje. Já hai mais um milhom de desempregados crónicos, esses que por idade toda vez que perdem o seu trabalho é-lhes impossível conseguir outro. O nível dos autónomos sem assalariados desceu brutalmente (109.700 no último ano).

Os partidos políticos, esquerda ou que criamos que era esquerda, seguem jogando ao "consenso ultraliberal", uns cargam mais o bombo, outros adereçam-no melhor. "La culpa es de los inmigrantes". No mundo pós-Berlim onde existem mais muros do que nunca o racismo e o ultranacionalismo som a melhor pílula para agochar umha recrudescida luita de classes, onde por certo a classe trabalhadora se topa mais desorientada e débil do que nunca antes em todo o século XX. As cifras desmentem isto, o desemprego nos estrangeiros aumentou em 55.200 pessoas no trimestre anterior, com umha taxa de 30'9%. Enquanto para os moradores do Reino a taxa de actividade desce sete décimas para os estrangeiros sube 1'16% até 77'28%.

Nom é por acaso que a destruiçom de emprego seja mais acusado entre os varons e os estrangeiros. A queda do boom imobiliário, que junto à indústria concentram a destruiçom de emprego maioritariamente, explica à perfeiçom isto. O sector serviços pola demanda de bens de consumo resiste... por agora. O carácter de acumulaçom por desposesom da primacia do capital financeiro está por trás do aumento dramático da dívida familiar e com a nova reforma laboral a estagnaçom e queda no consumo podem afundir-nos numha grande depresom de gravíssimas conseqüências. Com umha esquerda de férias nom é defícil adivinha que é o que vai impor-se no Reino da Espanha.

A recentralizaçom galopante tolerada pola esquerda e encabeçada pola direita nom fará mais do que agravar o eixe Norte-Sul do Estado - cada vez mais nítido até nas taxas de desemprego (Estremadura 23'4%, A Mancha 21'6%, Andaluzia 27'2% e Canárias 27'7%). O modelo de tixolo e sol quedou e finiquitou o dinamismo económico no Sul ainda mais do que no Norte, por nom falar dum reparto da terra muito diferente ao do Norte (os camponeses em crise permanete na Galiza durante décadas perdem quartos e mais quartos e muitos som realmente desempregados já que trabalham para o francês).

Pola contra, onde a desentralizaçom foi nom só no gasto mas tamém nos ingressos a cousa muda. Em Euskal Herria, ainda que com um governo nefasto, vê-se que o dinamismo económico da comunidade e a pluralidade do seu sector industrial dam liçons ao resto do Estado. E o mesmo em Nafarroa. Euskal Herria reduziu o número de desempregados em 9.400 com respeito ao trimestre anterior e conta com um "tolerável" 10'9% face o 12'3% de Nafarroa. Galiza, lembremos os empregos no campo e no mar, o nível chega a 15'5%, inferior a Madrid e Catalunya, mas com umha populaçom activa infinitamente menor. O agente Feijoo que ia pôr fim ao paro num mês olha impotente a como se dispara o desemprego.

Elena Salgado anunciu o enésimo plano de estímulo económico, a partir de 26 medidas com as que conta criar 350.000 empregos, que ainda que fora certo supom unicamente atender 8% do paro actual. Surrealista para um modelo da Terceira Via cada vez mais desdibujado e chavacano. Dixérom-lho os que nunca se repregárom as distorsionadas images dumha socialdemocracia cada vez mais ultraliberal e desnortada. A linguage, análises e conceptos da esquerda clássica fôrom apagadas por umha linguage próxima ao cidadao, umha linguage ideotizadora que bota nas maos do ultranacionalismo espanholista ao proletariado. De por parte, a vicepresidenta económica do (des)governo dinástico anunciou que perante estes dados económicos os orçamentos de 2011 terám de ser mais retroactivos. Se nom tocam a sanidade, a educaçom e os serviços públicos onde é que vam reduzir? A suba do IVA, em Grande Bretanha hai quem suspeita que atingirá 20%, nom é mais do que um imposto directo que beneficia aos que mais tenhem e reduzer o poder aquisitivo dos que menos tenhem, com, no melhor dos casos, congelaçons salariais. Arde-lhe o eixe Norte-Sul, arde-lhe o carro burguesia-proletariado.

Umha pantasma percorre a Península. A dos especuladores que intoxicárom estados desfazendo-se dos seus bonos tóxicos e passando-lhe a podrémia ao público. Grécia é a ponta do iceberg. A banca alemá e francesa quedará com essa dívida e necessitará socializar novamente perdas, con dos cojones. O Yen está no ponto de mira, o volume de dívida do Reino Unido passa muito por cima do grego, e os mercados já nem disimulam que venhem para Portugal, Irlanda, Itália e o Reino da Espanha. Os EUA refregam as maos, porque a sua primazia económica mundial consiste em recolocar a sua falha de crédito em terceiros, no controlo do capital-financeiro mundial. Porém, a sua hegemonia está tocando fundo. Quando a Grande Bretanha se viu obrigada a manter a sua hegemonia mediante o capital financeiro e o militar a sua hegemonia rematou abrindo um período de 70 anos em que outras potências daquela "emergentes" ocupárom o seu lugar. China, Índia e Brasil aguardam o momento dumha recomposiçom do organigrama mundial. Quiçais seja precipitado fazer estas prediçons mais alguns indicadores parecem sugerir esta possibilidade.

No Estado espanhol a meirande preocupaçom é fazer umha nova reforma laboral que avive o lume da acumulaçom por desposesom, da destruiçom criativa de que falava David Harvey. Umha cirugia-de-ferro que só fará piorar a situaçom e incrementar os níveis de desempregados... alguém lembra quantos milhons de desempregados havia na Alemanha da República de Weimar no imparável ascenso do NSDAP? Alguém lembra como em 2001 as facilidades para o despedimento aprovadas polo PP causárom agora em 2009 900.000 de 1'1 milhons de postos de trabalho destruídos? Alguém acredita em sindicatos de "classe" seqüestrados polas ajudas do Estado que servem para liberar aos" seus", que nom som o conjunto da classe operária desde logo?

O governo Zapatero pretende aforrar 280 milhons, a tam manida austeridade (mas já se sabe que o barato sai caro), congelando o funcionariado - um dos mais baixos da UE-. Ou nom apredêrom nada do que se passa no Reino Unido (lá tampouco o figérom porque ganhe quem ganhe seguirám-no recortando) ou sabem e calam que com isso medrará o fraude fiscal e crescerá ainda mais a economia submergida que logo atingirá cifras de escándalo. Porém dá-me a mim que saber sabem-no porque a substituiçom do estado social polo penal praticam-na com eficiência:

"Las 1.989 plazas de nuevo ingreso se concentran especialmente en las Fuerzas de Seguridad del Estado y en las Fuerzas Armadas. Se reparten así: 222 para la Policía Nacional; 232 para la Guardia Civil; 754 para las Fuerzas Armadas y 781 para la Administración General del Estado".

"Mucha policia, poca diversión", já o dizia a cançom. Tamém planejam como em Grécia congelar os ordenados dos funcionários a vez que os investimentos em educaçom e sanidade seguem descendo. O New Dehal e o velfarismo morrérom, e o ultraliberalismo volta com fôlegos renovados e com a segurança de que fagam o que fagam a cidadania nom reagirá perante a globalizaçom/mundializaçom ultraliberal descendente dependendo de se nos atemos à terminologia anglófona ou francófona. A nova reforma laboral entregará-lhe as mútuas a decisom de outorgar baixas por incapacidade laboral absoluta, a Seguridade Social ficará para socializar perdas, coma o Estado no seu conjunto. O trabalhador-consumidor nem sabe nem suspeita que as luitas e conquistas de mais dum século poderiam perder-se em duas décadas. A esquerda segue cega e nega-se a assumir a realidade.

O "consenso ultraliberal" como dogma penetra por igual em todas as forças políticas da II Restauraçom bourbónica. O problema nom foi a especulaçom dos mercados financeiros, desesperada baça por manter um sistema-mundo em descomposiçom social, moral e económica. O problema é dos "despilfarradores" estados sociais da UE. O problema é que os ordenados som mui altos (quando levam desde fai anos medrando por baixo do IPC maiormente) e impedem o processo de acumulaçom do capital que perde de ganhar milhons de euros. Perder de ganhar? Nom perde de ganhar o trabalhador estafado polo capital financeiro com a suba das suas hipotecas? Atafegado polo consumismo que o consome? A mais valia da mais valia, boa mais valia será.

O republicanismo, a defesa da res pública perante o privi legium, é cada vez mais exíguo. O BNG sem temom, nem Norte afunde a cada novo inquérito e parece que a ninguém lhe importa o mais mínimo. As canles de codecisom, participaçom e aproximaçom entre a sociedade civil e a instáncia política estám tam desmanteladas como os centros industriais em que se concentrava o proletariado nos 90. Nom se extinguiu o proletariado combativo e mais facilmente identificável. Simplesmente emigrou. Que lho perguntem ao sindicalismo de Coreia do Sul, as massas proletarias de China, aos países do terceiro mundo que seguem a Terceira Via (ainda que se qualifiquem como socialistas) e tentam retomar o estado para as maiorias sociais.

"Na trastenda destes fenómenos está a operarse un proceso que, de proseguir, conduce á crise da xa referida "correspondencia necesária" entre base económica e superestruturas ideolóxica e política -que, por certo, ten como correlativo fenómeno crítico o percibido polo común como "divorcio" entre a "sociedade civil" e o aparello de poder político. Históricamente, se a correspondencia entre base e superestrutura acada o punto límite da creba, ábrese unha transición sistémica de longa duración, na que se "remudan", digámolo así, as tres instancias das formacións sociais, e non só o modo de produción stricto sensu", Beiras Torrado.

Enquanto todo isto se passa, a esquerda altermundista e anticapitalista do Bloco de Esquerdas, do Die Linke ou a seguidora do Daniel Bensaïd na França segue sem aparecer claramente perante os olhos da cidadania. Seguimos numha cárcere esperando que volva ser o que foi o BNG. Nom volverá, jamais. Som demasiados os vampiros e as lapas que vivem do aparato, que medrárom na sua sombra e que nunca vírom a luz do sol fora del. Convidam ao seu analista e intelectual mais lúcido a marchar. Aqui o único problema é que as caixas tenham sé na Galiza - nom que sirvam ao povo e sejam públicas realmente- e o decretaço do galego. E este discurso que é para os nacionalistas com emprego ou para o comum da ciudadania desempregada?

Um modelo, o do BNG, que se adiantou à recomposiçom da esquerda mundial em mais de duas décadas já só é parte do passado. Um modelo que superava o maximalismo, que tendia posturas na divergência, que integrava movimentos da sociedade civil mais consciente no seu interior. O mismo para o sindicalismo. O fascismo volta camuflado e com subtileça, a ideotizaçom da massa nom tem parangom, o franquismo sem Franco é a democracia realmente existente (cada vez mais: estatut de Catalunya, impossibilidade de condenar o nacional-catolicismo e os seus sicários, a corrupçom como norma...). Isto nom o arranjamos entre todos, isto arrajamo-lo com esquerda real, ou com esquerda real. Muito politiqueio e poucos políticos. Nom avonda com dizer que quando se ameaçam massivamente os postos de trabalho baixa a combatividade dos trabalhadores. Hai que descer a ágora, hai que partilhar a dor e a raiva dos explorados, hai que fazer ver aos cegos e andar aos cojos... hai que, em definitiva, ouvir ao povo que lhe di à esquerda institucionalizada que "com as bragas enjoitas nom se pilham as troitas". Atentos!






segunda-feira, 26 de abril de 2010

Homero, a ágora, os hilotas e as moscas

Este artigo é umha versom que serviu de base ao discurso de formatura de filologia galega o passado 23 de Abril, de aí a sua forma.





Encenamos hoje simbolicamente o termo das nossas respectivas licenciaturas e achegamo-nos um pouco mais a pôr os nossos conhecimentos e capacidades ao serviço da sociedade, devolvendo assi à cidadania o que nós recebemos através da universidade pública. Dizia Castelao “non lle poñades chatas â obra namentras non se remata. O que pense que vai mal que traballe n'ela...” e, efectivamente, a formaçom é um processo que longe de rematar com a obtençom dum título nom fai mais do que começar.


Porém, nom é menos certo que hoje é o momento de “volver la vista atrás” e recapitular enxergando um bosquejo sobre algumhas questons que rodeárom estes cinco anos em que se envolveu a nossa etapa formativa. Deveriamos começar por afirmar que a vida académica nom som apenas as classes, as investigaçons ou as rotinárias juntas de Faculdade ou de Deparamento. O bom funcionamento dumha universidade pública requere tamém actos onde conjuntamente o alunado, o professorado e os PAS podam repensar, reflexionar e baixar a ágora para dilucidar qual é a situaçom dumha instituiçom que por força reflite as tensons dialécticas da cultura, mas tamém da sociedade, da economia e da política que transversalmente afecta ao conjunto de toda a cidadania.


Fai algum tempo aparecia nos EUA um livro com um título demoledor: Quem matou a Homero? É evidente que os pensares que o livro debulhava se ligavam intimamente com a preocupaçom compartilhada por muitos de que a universidade se encontrava em crise, nomeadamente as ciências sociais. Sem restar valor nengum as disquisiçons deste ensaio torna-se palpável que estas crises se inserem numha crise muito mais ampla: a crise da vida social, ou até da crise do sistema-mundo, em expressom de Wallerstein e de todos os seguidores de Fernand Braudel, ou seja o preámbulo da queda do relativismo, do individualismo e o narcisismo extremos sancionado por leituras pós-modernistas para nada inocentes.


Um dos piares destas crises estruturais nom só é a morte de Homero, quer dizer a queda do pensamento crítico, mas tamém a morte paulatina do espaço onde esse pensamento tem que, por força, desenvolver-se para poder avançar. A destruiçom da ágora, a mercantilizaçom da res pública ou, por outras palavras, o retrocesso da esfera pública desde a década dos setenta quando os dogmas acientíficos do ultraliberalismo, a denominada polo professor Tugores “vingança das elites”, se propujo pôr fim à democratizaçom da ensinança em geral e a educaçom superior em particular que se iniciara em Ocidente após a derrota dos fascismos em 1945. Vaia por diante que a conclusom evidente de todo isto é a conversom dos cidadaos em hilotas, em súbditos, mediante o saqueio e a espoliaçom do património público, como expressou atinadamente Antoni Domènech, introduzindo critérios de mercado e de lucro privado na gestom dos serviços públicos.


Esta espoliaçom liga-se com umha outra espoliaçom nom menos traumática, a do património natural. Estes dous espólios tenhem um comum denominador: a exclusom das maiorias sociais de recursos aos que antes podiam aceder livremente – publicamente – sem outra exigência que o da cidadania, para maior abastamento das forças globais de mercado e as poliarquias que garantem o direito ao rodopio infernal dumha exclusom ininterrupta. O povo já nom é, se é que algumha foi, quem mais ordena.


A morte de Homero nom é apenas como apontam alguns o retrocesso das humanidades perante as ciências experimentais. A investigaçom teórica fundamental em qualquer ciência nom pode escravizar-se sob os parámetros de custo-benefício, já que é impossível determinar previamente qual é o custo para obter esse bem informativo desejado. Por exemplo, a célebre teoria geral da relatividade nom tivo até fai apenas uns anos a menor aplicaçom prática e ainda hoje só é usada para construir localizadores GPS.


Sempre ficará para estes casos, claro está, recorrer a infame socializaçom das perdas. No entanto, nos EUA a constriçom da investigaçom e já um feito inegável. O keinessiano prémio Nobel em economia de 2008, Paul Krugman, alertava sobre isto recentemente num artigo intitulado “O estadounidense inculto”, onde indicava que a outrora exemplar educaçom superior ianque tinha hoje uns níveis de licenciados por baixo doutros países desenvolvidos, pola exigência de serem estudantes a tempo completo e pola queda económica dos colégios universitários que permitiam estudar às pessoas com menos recursos. Porém introduzia um outro aspecto nom menos rechamante: o despedimento de milheiros de professores.


Noutra reflexom de Krugman sobre a escura ciência económica afirmava que, em todas as ciências, era palpável o retrocesso do espaço público perante o privi-legium em estrito sentido etimológico, ou seja, a lei privada, a conversom da ciência pública em ciência religiosa que despreça a soberania dos feitos objectivos, pública e intersubjectivamente observáveis; chegando ao esperpento de tentar medir as variáveis empíricas conforme à teoria e nom ao revés.


Como nos lembra o catedrático Doménech “a ciência moderna – como o direito republicano moderno – nasceu e prosperou quando se liberou o espaço público suficiente da tirania dos interesses e das razons privadas”. Bertrand Russel indicava a este respeito que quando duas posturas se confrontam nom hai nada objectivo ao que apelar, nada independente dos interesses privados, e que em ausência dum espaço de deliberaçom público o único que fica é apelar à força. Efectivamente, teorias maquiavélicas como as de Fukuyama parecem indicar que para ser um bom científico cumpre ser El rey de la selva.


Nom estaria por demais lembrar que só treze anos após o apontado por Russel saltava à palestra o superrelativismo do fascismo da mao de Benito Mussolini. Precisamente, o textos em que Mussolini despreza as categorias fixas e a decadência do “mito da ciência” foi passado entre os alunos de Domenèch, tirando-lhe a palavra fascismo, e cuidavam que era um texto dalgum pós-moderno francês ou norteamericano.


Nicole Gohlke e Janine Wissler analisavam as conseqüências da Declaraçom de Bolonha após dez anos na Alemanha. E desde a retranca falavam de “um mundo (universitário) feliz” - jogando com o título do célebre romance de Aldous Huxley. A ensinança superior tornou-se umha fábrica da aprendizage onde pioram substancialmente as condiçons de estudo e trabalho: salas ateigadas, menos professores (1.500 praças menos em rigor) e umha excessiva pressom sobre o rendimento com um excesso de exames, contróis de assistência e titorias cujo resultado é “umha aprendizage bulímica” em que se memorizam dados e mais dados para logo vomitá-los no exame; e cujo resultado som uns licenciados anoréxicos. Diriamos aqui, entre nós, passou o dia e passou a romaria, nom si?


Para as autoridades germanas o fracasso do modelo Bolonha explica-se simplesmente como um “problema de aplicaçom”. Nega-se, daquela, que em coordenadas da república da investigaçom científica, o Plano Bolonha vem a revelar-se como a consagraçom dum modelo que progressivamente desafiunça e esbaleira de conteúdo a ágora académica tornando ao estudantado em consumidor dum produto e nom em depositário dum conhecimento geral. Esquece-se deliberadamente o letreiro que adverte na república as razons privadas do seguinte: lasciate ogni speranza voi ch'entrate.


Neste sentido, é traumática a progressiva queda dos conhecimentos departidos, a artificial e total separaçom entre as diversas ciências sociais como se de compartimentos estancos se trataram e que trai consigo umha teórica especializaçom que nom alcança para agochar a ideotizaçom – no senso etimológico da palavra- da sucessivas fornadas de licenciados – de aqui para a frente graduados –, que som observados tam só como “recursos humanos”, ou seja, como umha mercadoria mais sobre a que rije a Lei da Oferta e a Demanda e, portanto, que caminha para umha inevitável precarizaçom, polo aumento da reserva de força de trabalho, e que exigirá a realizaçom de custosos masters – alguns por certo ilegais polo seu carácter retroactivo sobre os licenciados como o Máster de Secundária – e, na prática, o prolongamento dos estudos, o endividamento do estudantado, a progressiva elitizaçom do ensino, und so weiter como engadira o poeta germano Lenau a meado o século XIX.


Karl Marx assinalava no primeiro volume de O Capital “o divórcio das forças espirituais a respeito dos processos de produçom do trabalho manual e da transformaçom do mesmo em força do capital sobre o trabalho”. Com menos lírica parece evidente que o que agora se procura é umha massa maleável de licenciados recortados polo mesmo padrom para adaptar-se à flexibilidade laboral sobre o que Gerardo Díaz Ferrán e Adolfo Domínguez sentam cátedra desde o binómio político – mediático. A prémio Nobel Elinor Obstrom respondeu quando lhe perguntavam pola sua “heterodoxa” ciência económica que ela fazia económica política, umha labaçada a mais de um século de impostura científica onde a predicaçom “política” começou a desaparecer de todas as ciências sociais, até da sociolingüística, que deveria ser em rigor lingüística política, toda vez que a lingüística já é social, em tanto em quanto a língua é um produto social natural. A conseqüência foi a defragmentaçom quixotesca da ciência social clássica para idiotizá-la tam inecessária como infertilmente. La razón de la sinrazón que a mi razón se hace, de tal manera mi razón enflaquece, que con razón me quejo de la vuestra impostura, parafraseando a Cervantes.


A famosa e abstracta Declaraçom de Bolonha, aplicada mui desigualmente em cada país, vem na prática a confirmar que, aquel texto tingido de vernizes positivos e esperançadores para fazer dumha vez umha reforma universitária a fundo e europeia, é um dos prolegômenos, quando nom o corolário, dumha ameaça cultural de primeira orde para a sobrevivência da investigaçom científica, onde a privatizaçom parcial mercantiliza o conhecimento e, politicamente, deve ser olhado pola sociedade civil como um saqueio, umha exclusom dos bens públicos a prol dos interesses privados.


Conviria por igual perguntarmo-nos por quê é que se a convergência e a homogeneidade som tam óptimas Medicina, Arquitectura e diversas engenharias clássicas ficam afora do processo; por quê é que se exacerbou a heterogeneidade entre os diversos planos de estudos das diversas universidades espanholas (por exemplo, filologia galega na USC, galego – portuguesa na UCD e galego – hispánica em Vigo); por quê para direito se alude um carácter marcadamente nacional que parece nom operar nem na história nem na economia; e, sobretodo, por quê umha declaraçom que nom vincula juridicamente aos estados se está aplicando freneticamente e à toa. Écrasez l'infâme lembraria-nos o Volteire desde o seu exílio em Genebra. Mádia a leva.

A Declaraçom de Bolonha, torna, em fim, de raivosa actualidade aquel opúsculo de Jonathan Swift de 1733: A arte da mentira política e impom-nos aos educadores do futuro umha meta concreta: a assunçom de que o velho lema da Ilustraçom SAPERE AUDE, difundido por Kant que o resgata de Horácio, deve ser o valor primordial assumido por qualquer aluno ainda por cima da aprendizage de normas e demais convençons ortográficas e fonéticas mais ou menos enfastiante. Alia iacta est. A nossa missom é garantir que nunca se repita aquela lámina do álbum Nós de Castelao: “só sonham quando dormem”.


Já para rematar nom estaria por demais lembrar que nesta dialéctica, entre a res pública e o privi-legium, se insire o novo decreto do galego e a nova estrategia da glotofaxia da caverna celtibérica. Os mesmos que clamam contra a politizaçom da língua subvertem o carácter social univóco da linguage argüindo que nom existem direitos colectivos, mas apenas o privi-legium. Politizam a língua e ainda se atrevem a dilucidar que devem decidir os pais individualmente a educaçom colectiva e pública dos seus filhos.


A prédica canibal do bilingüismo equilibrado nasce da lógica do livre mercado ultraliberal aplicado às línguas: umha língua A e outra língua B competem em desigualdade de condiçons num mercado sem aranceis nem proteccionismos e os oprimidos devemos aguardar a que a mao invisível do mercado o regule todo. Claro que esta ideologia perversa do nacionalismo lingüístico espanhol, que tam lucidamente denunciou Moreno Cabrera por certo, comporta-se bem diferente quando é o inglês o que ataca os territórios do império em muletas em Puerto Rico. O Made in China nom está de moda, o chauvinismo mais ranço e retrógrado disfarçado de constitucionalismo está em voga.


Desta volta o verniz para que traguemos o anzol de algo infumável é o inglês, em aras dum cosmopaifoquismo requintado e exangue. Nom devêrom ler aquilo de Joám Vicente Biqueira: “A pessoa cosmopolita é aquela que nada humano lhe é alheio, nom aquel que até a sua terra lhe é estranha”. Expressara-o Publio Terêncio Africano “Homo sum, humani nihil a me alienum puto” na obra O inimigo de si próprio. Claro que face o humanismo sempre hai por toda a parte um Clinton para nos responder the economy, stupid!

Remato, pois com umha música já que hoje é um dia fasto dentro dumha conjuntura nefasta. A pouco do aniversário da Revoluçom dos Cravos nom perdeu vigência aquilo que cantava o Luís Cília, “ É sempre a mesma melodia: / o Salazar e a sua democracia;/ com Caetano é a mesma porcaria: / as moscas mudam, / só a merda não varia”.



segunda-feira, 5 de abril de 2010

Destruir o templo para sair da incubadora II

Fago umha descriçom suscinta da teoria da incubadora, que agora nom tenho tempo para desenvolver mais polo miúdo, mas que tampouco é algo fechado e está aberta a quem lhe veja algo de sentido e nom pense simplesmente que é necessário ingressar-me nalgum manicómio. Vou fazer umha tentativa do elógio da loucura como o Erasmo.

Recentemente fixo-se famosa a última amostra do narcisismo com o que o ultraliberalismo fabrica umha anti-sociedade: um formato na rede em que a pessoa vai rotando cada poucos minutos de contertúlio arredor do globo. É a fabricaçom do supereu, o narcisismo extremo. Perde-se de vista a condiçom de associado e passa-se a ficar sem consciecia para viver na inconsciência dumha autarquia egoista em que o indivíduo se sente desligado do resto dos seus semelhantes, quando está dentro dumha incubadora que o mantém vivo, mas completamente passivo e escravo. Lembrades-vos daquela seqüência de Matrix onde as pessoas ficavam numhas cápsulas de por vida enquanto tiravam deles a energia e sonhavam umha maravilhosa vida em Matrix? Essa é umha boa metáfora da incubadora. Esse é o debujo de Nós "só sonham quando dormem".

O filósofo esloveno Slovaj Zizek fala do tamagochi como objecto interpassivo. Interactuar com o meio nom sendo um consumidor passivo simplesmente mas actuando através doutro actor, com o que se creia a ficçom de interactividade quando em verdade o sujeito fica sentado e passivo limitando-se a observar o jogo. Entronca isto com a desinformaçom por sobreinformaçom do pós-modernismo, a passividade por hiperactividade. O tamagochi é um ritual obsessivo e baleiro(ou o cara-livro mesmo) em que assumimos gestos de lamento para nom experimentar a verdadeira dor. Por outras palavras o indivíduo supera falsamente o antagonismo de nom ser um sócio livre na anti-sociedade pós-modernista situando-se falsamente por cima dos demais, dessassociando-se ingenuamente no seu supereu remata por ficar passivamente subaleterno. Escraviza-se.

Neste sentido, o tamgochi, o cara-livro ou qualquer um dos fetiches, sendo o pós-modernismo a incubadora-fetiche por excelência do ego conduzem a umha terrível e trágica conseqüência de que Zizej adverte com extrema lucidez no livro Em defesa da intoleráncia: Deus é o tamgochi definitivo fabricado polo nosso incosciente e que nos bombardeia com exigências inexoráveis anulando o nosso eu para fabricar umha image falsa dum próprio em relaçom com a sociedade. Eis o nostoi tragicocómico em que voltamos a caverna de Platom.

A incubadora pós-modernista, o fetiche, permite-nos fazer da interpassividade algo mecánico para superar a nossa necessidade de amar ao prójimo que é inerente à natureza social do ser humano:

"o que a ética tradicional tinha como a expressom mais alta da humanidade dumha pessoa - a necessidade compassiva de preocupar-se polo prójimo - fica reduzida a umha indecente e idiosincrásica [idiotisincrásica diria eu] patologia que deve resolver-se na esfera privada [a politizaçom do familiar, e a familiarizaçom do público em que as coordenadas que dá Loic Wacqant som a cúspide do icebergue sendo o estado a família superior, o líquido amiótico da incubadora passando do cidadao ao súbdito], sem molestar aos semelhantes aos coetáneos.
(...)
A característica distintiva da interpassividade refire-se, nom a umha situaçom na que um outro me substitui, fai algo no meu lugar, mas à situaçom oposta, em que estou permanentemente activo e alimento a minha actividade coma passividade do outro.
(...)
O ámbito das relaçons capitalistas de mercado constitui a 'outra cena' da suposta repolitizaçom da sociedade civil defendida polos partidários das 'políticas identitárias' e de outras formas pós-modernas de politizaçom: todo esse discurso sobre essas novas formas da política que surgem por toda a parte encol questons particulares (...) toda essa incesante activdade das identidadess fluídas, oscilantes, das múltiplas coaligaçons ad hoc em continua reelaboraçom, etc., todo isso tem algo de produndamente inauténtico e remete-nos para, em definitiva, o neurótico obsessivo que ou bem fala sem cesar ou bem está em permanete actividade, precisamente com o propósito de segurar-se de que algo - o que importa de verdade [o consenso ultraliberal, o pensamento único, o capitalismo mesmo] nom seja molestado e siga imutável. O principal problema da actual pós-política, em definitiva, é que é fundamentalmente interpassiva".

Pode-se estar ou nom de acordo, mas dá para pensar e muito, sobre um próprio em primeiro lugar e pola anti-sociedade pós-moderna logo. Um outro apontamento que ficará para melhor ocasiom: a maioria do que hoje se chama ciência fundamenta-se sobre esse machacom apoliticismo e pós-política e, portanto, antisocial.

Entom, podemos dizer que fundamentalmente a ciência actual vem ocupar o oco da religiom, é ciência religiosa e nom ciência republicana, ateia, libertária. Se a base sobre a que se ergue o edifício cognitivo dumha hipótese é falsa a hipótese mesma fica automaticamente refutada. Se a sócio-lingüística defende a despolitizaçom da língua, a sócio-lingüísitica óbvia a condiçom social, o inatismo que propugnou Chomsky, da linguage e, daquela, essa sócio-lingüística e falsa e dificilmente as suas diagnoses podem ser acertadas nem aplicáveis sem criar disfunçons insalváveis (a própria ideia de língua como a de naçom som construtos sociais como sublinha verazmente Moreno Cabrera). Assume-se o pós-modernismo em todos os campos, a assume-se o pensamento único e remata-se por fazer da ciência em geral, e das ciências socias em particular, simples dogma religioso. Hai que acreditar na fim da história porque assi no-lo dixo Fukuyama. Diredes-me que Fukuyama foi superado e refutado. Mas ú-la história feita desde o socialismo científico na actualidade? e a lingüística? Ou o marxismo e demais propostas do socialismo científico nom som um instrumento útil para fazer ciência (como dim que nom é a psicanálise mas logo usam-na nos EUA de corrido) ou o "consenso" nunca é nem por acaso nem na sua concepçom inocente... Destruir o templo para sair da incubadora... a tarefa é gigantesca, mas como dizia Castelao nesta obra hai sítio para todas e todos. Nom lhe ponhades chatas até que esteja rematada.

domingo, 4 de abril de 2010

Destruir o templo para sair da incubadora. Tragédia racional.

Imos ver. A pergunta que me fai o meu companheiro parte dumha base falsa polo que tratarei de mostrar a continuaçom.

Em primeiro lugar a ideia de Espanha. Fora Calvo Sotelo quem advertia que preferia umha Espanha roxa a umha Espanha rota. Se acreditamos que Espanha é o único sujeito de soberania, o estado-naçom espanhol, negamos nom só umha Galiza independente, mas tamém a existência da própria naçom galega. Por outras palavras, Espanha é umha criaçom decimonónica da burguesia espanhola feita principalmente sobre a cultura castelhana. Os antagonismos com as outras culturas nom tardárom em exprimir-se e já nesse século irrompem figuras como Sabino Arana. Esses antagonismos imposibilitam, em definitiva, um estado-naçom espanhol sem "inconvenientes" e, portanto, é falso que se podam resolver num estado-naçom unitário quanto este nom seja tamém umha naçom-estado.

Em segundo lugar, negar a existência destes antagonismos e a sua superaçom afora da independência e o federalismo (mas lembremos que para casarnos temos que estas primeiramente solteiros, a nom ser que o Estado espanhol seja um xeque árabe) é negar a essência mesma da sociedade. A luita de classes, onde umha burguesia exprime a ideia de Espanha pro domo sua. Todos somos espanhóis nom é mais do que umha camuflage para obviar que espanhóis som uns poucos e os demais somos súbditos seus. A luita de classes tem, nas naçons sem estado umha fasquia particular motivada precisamente polo colonialismo cultural e pola relaçom dual de dependência a respeito do centro. Por outras palavras, num estado unitário Galiza seguiria sendo periferia (cultural e económica) e os cidadaos galegos ficariam descriminados com respeito ao centro. Planejar a pergunta sem precisar mais qual seria a organizaçom dessa Espanha socialista é demasiado simplista.

Terceira questom. A simboloxia que propós é um oxímorom. Essa bandeira representa o que representa e nom muda por pôr-lhe umha estrela no meio, ou seja, que teria que ser a republicana em todo caso e nem assi conviriamos com ela muitos galegos de naçom. Portanto, essa Espanha espantosa de que falas nom nasceria da livre adesom de cada cidadao nem do mútuo acordo. Se os cidadaos nom somos iguais, se existe a diferença essa Espanha socialista (ou essa Galiza socialista e idependente) nom seriam "todo ventagens" e em rigor seguiriamos sem viver na sociedade, mas na anti-sociedade, todavia superada a fase actual do narcisismo pós-modernista eurocéntrico que descrevo mediante a Teoria da incubadora que agora nom tenho tempo de explicar aqui.

Quarta questom: que é o socialismo? O "socialismo" do PSOE, a socialdemocracia, o marxismo-leninismo ou algumha outra cousa que se nos escapa?

Quinta questom e coda ao dito, por nom extender-me demais. Som eu agora o que fago as perguntas devolvendo o jogo num contraataque que bate contras as bases do pensamento de 99% dos espanhóis e dos galegos e preconiza a morte de deus e do home, a fim do planeta dos símios-marraos e o nascimento em difícil, mas suntuoso parto do SUPERHUMANO que é o HUMANO mesmo quando sai da incubadora que o converte em INFRAHUMANO:

a) é possível umha sociedade perfeita sem umha igualdade entre os membros (base sem a qual a liberdade é umha enteléquia, umha quimeira)? Obviamente conviredes em que nom.

b)Qual é o foco principal da desigualdade? A propriedade responderedes-me com acerto.

c)E qual é o garante e vigilante permanente dessa propriedade? O estado dirám-me já menos pessoas com a faciana desencaixada advertindo o trágico final da tragédia do organigrama social.

d) Qual é portanto a única forma de socialismo científico verdadeiramente tendente à defesa da igualdade e portanto da sociedade (enquanto que os associados tenhem que ser necessariamente iguais para poderem associarem-se em liberdade)? A que bota os mercaderes do templo para intalar-se eles e fundar um novo clero ou a que destrói o templo e qualquer intermediário entre deus e o home? A resposta deixa o auditório baldeiro e um louco Antom fala só com as paredes... o socialismo libertário!!! Berra em vano, ninguém o ouça já. O socialismo libertário chama-se tamém anarquia, porque esta é a forma superior e definitiva de organizaçom social e, em virtude, a única sociedade possível. Nom é a desorde é a orde mesma. Nom é egoismo é o comunismo mesmo.

Consumatum est, e o véu do templo já se rachou em dous enquanto aguardo ter ampliado o horizonte de expectativas de quem tenha lido isto. A perfeiçom nom se escrevem nem com G nem todavia com E. Com A, apenas com A. Alfa e omega, princípio e fim de todas as cousas... Umha pantasma percorre Europa... a Santa Companha de Kropotkin, Proudhon, Marx, Bakunin, Gramsci... a santa companha da Alba de glória vai umha e outra vez do Padornelo a Fisterra, mas a luz nom volta a caduca Ibéria dos filhos de Breogám. Mágoa que os mortos-viventes nom tenham desejo de deixar de sê-lo, de passar de ser súbditos e vasalos para converterem-se em cidadaos. Haverá que ajudar-lhes ponhendo-lhes um olho de vidro e a ver se assi "os cegos vem e os cojos andam". Dixem.

segunda-feira, 15 de março de 2010

A Galiza sem esquerda

"As revoluçons só tenhem eficácia para derogar os princípios mais modernos, enquanto confirmam os mais antiguos. Portanto, o mal que nos dana é anterior a todas as revoluçons", Pierre Joseph Proudhon, Que é que é a propriedade?

Semelha que por vez primeira desde as revoltas irmandinhas imos ser pioneiros nisto das revoluçons. A enésima involuçom sócio-política adiantou-se na Galiza e no horizonte da Moncloa já podem ver-se as gaivotas que terám um interesante teste nas eleiçons municipais de 2011. Rem muda no panorama dos partidos dinásticos da II Restauraçom bourbónica, matrimónio encuberto PSOE-PP alternante e sem alternativa para a classe trabalhadora onde UPyD actua como a válvula que direitiza o voto pseudosocialista para forçar a "centrar-se" (ainda mais?) ao PSOE. A monarquia e os seus braços políticos seguem com a ideia da Espanha imperialista e nacional-católica do franquismo: centralista, monolingüe e católica (acofensional como lhe dim hoje); de patrons e senhoritos; de touros, flamenco e futebol nos domingos. Unidade de destino no universalmente ranço e retrógrado, quase nada.

As políticas sociais seguem sendo classistas como na etapa Aznar, mas o pior do ultraliberalismo está por chegar ao conjunto do Estado através do PP, totalmente entregue ao lobby de poder que o apoia por meio da demagogia e a intoxicaçom mediática. Aliás, o PSOE escora-se cada vez mais nos posicionamentos do PP e os discursos alternativos do nacionalismo emancipador som demonizados polo máximo comum denominador de PP e PSOE: o nacionalismo opressor da caverna celtibérica, a ideia da Espanha como "una, grande y libre" cárcere e assassina da pluralidade, a liberdade e os povos".

Volverám as escuras andurinhas à Moncloa como chegárom a Sam Caetano, com mao-de-ferro e luva de sede, vendendo actas de patriocidade como Aznar ou como Franco - que tempos!, pensarám os nostálgicos quando ainda nom o condenárom - fazendo das televisons e jornais como La Voz do Povo Galego (LVPG) um outro NO-DO com novos "urdacis", voltando a educaçom confessional e elitista, aos sindicatos verticais propriedade da patronal, aos gandeiros que mantenhem a vaca para que outros levem o leite... volvemos aos pequenos 23-F que dia-a-dia permitírom que na Galiza hoje as rendas do capital superem as rendas do trabalho, que fam que o poder aquisitivo da classe operária desça de dia para dia e que o direito elementar ao trabalho seja um privilégio, isso si, com míseras condiçons laborais e salarais. Volve o Proudhon a minha cachola:

"todos os homes, em efeito, acreditam e sintem que a igualdade de condiçons é idéntica à igualdade de direitos: que propriedade e roubo som termos sinónimos; que toda preeminência social outorgada, ou melhor dito, usurpada ao pretexto de superioridade do talento e do serviço, é iniquidade e latrocínio: todos os homes, afirmo eu, som depositários destas verdades na intimidade da sua alma; trata-se simplesmente de fazer qu as advirtam".

Para que remate esta vergonha e fundamental decatar-nos de que a luita de classes existe, e que só vencem os povos que luitam. Voltemos à esquerda. A Marx, ao socialismo, sem complexos, desde o diálogo e as assembleias de trabalhadores. Refundemos as armas de luita pola emancipaçom mancional e social da Galiza: que os partidos políticos deixem de ser aparatos e se convertam em vozeiros efectivos do povo; que os sindicatos sejam tomados polos trabalhadores, tirem as pejas das subvençons estatais e se lancem à necessária GREVE GERAL INDEFINIDA onde o agro, o metal, os trabalhadores afectados por ERE'S, os desempregados e o estudantado afectado polo Plano Bolonha se deam a mao marcando metas concretas e irrenunciáveis que lhe mostrem a burguesia e aos banqueiros que isto nom se arranja entre todos e que somos mais e estamos fartos.


Artigo tamém disponível nestes outros espaços em rede:
http://xgaliza.blogspot.com/2010/03/galiza-sem-esquerda.html
http://aconjuradosnescios.blogspot.com/2010/03/galiza-sem-esquerda.html

A morte dum deus

"Muitos mortais, entregado à larpeirada e a cama, incultos e analfabetos, recorrem a vida como vagabundos: certamente a estes, contra natura, o corpo serviu-lhes de vontade e a alma de fardo. Eu estimo por igual a sua vida e a sua morte, já que descansam em ambas", Sallustio.

Em tempos de Stáline ou Brezner o povo russo e as demais naçons da URSS padeciam umha grande opressom, nascida de ditaminar a escravatura do campesinhado a respeito do tzar e dos popes. Hoje Rússia é umha caricatura da Uniom Soviética governada polas máfias e com umhas diferenças abismais entre ricos e pobres, ou seja, que agora dim-nos que sem opressom os recursos da Mai Rússia pertencem a Gaspron e quatro ou cinco senhores de gravata, mais altos e guapos que aqueles escuros burócratas "comunistas". Ninguém lembra já que a URSS passou em vinte anos, e no contexto do bloqueio internacional e as grandes guerras do século XX, de país pré-capitalista e atrasado a potência de primeiro orde, quase nada.

Agora hai liberdade, de mercado por suposto, já que um universitário cobrará, quando trabalhe, um ordenado que apenas lhe chegará para sustentar a família. A URSS foi mais que nada a utopia sonhada de muitos operários e homes de esquerda, porque conheciam só o que a propaganda lhes deixava ver, a URSS foi o motor, o espelho e a estrela Polar da esquerda europeia longo tempo e, de facto, ainda nom se subrepujo da sua queda e ficam muitos nostálgicos do Kalashnikov e o esturiom. URSS foi deus, foi religiom de que agora todas e todos renegárom... podemos ser ou nom crentes, mas no conto da URSS, como na fábula espanhola, nom está bem que nos deixemos manipular nem por uns nem por outros. Aquilo nom era democracia nem comunismo, certo. Apenas um infumável socialismo de estado que esmagou constantemente à sociedade civil e seqüestrou a Revoluçom de Outubro num capitalismo sem capitalistas. O que hai hoje tampouco ou ainda menos: maos-de-aço e luva branca, ou seja, demofarsa.

segunda-feira, 1 de março de 2010

DEMOCRACIA E DEMOCRACIAS


Actualmente vivemos no mundo do engano e a desinformaçom por sobreinformaçom, especialmente notória em capas cada vez mais amplas da sociedade, especialmente da mocidade, que podemos qualificar sem risco de excesso como “analfabetos funcionais”.

Fai afora um tempo que o “terrorista”, “delinqüente” e “ditador” Hugo Chávez nos fora apresentado como o novo Estaline quando consultou ao povo para poder ser reelegido como presidente o que requeria modificar a Constituiçom, essa carta de deveres e direitos que sistematicamente é violada em todos os países, incluso na nossa – sua – exemplar “democracia”.

A marge do que em situaçons normais é positivo (a rotaçom de cargos institucionais) o certo é que a autointitulada revoluçom bolivariana nom se sustentaria hoje por hoje sem o carisma de Chávez.

No entanto, o binómio político-mediático nom nos dixo nada estes dias de que a Constituiçom colombiana de 1991 só permite umha reeleiçom. Porém, Uribe já deixou claro que opta à reeleiçom, entom vai consultar este “demócrata” ao povo como fixo o “tirano” Chávez? Porque Uribe segundo as FARC-EP é o chefe do narcotráfico – os próprios EUA tinham-no na listage de narcocriminosos até que foi eleito presidente –, mas segundo El País, La Voz de Galicia e demais imprensa “democrática”, “independente” e “rigorosa” é um “presidente exemplar”, o adalide da “democracia” e a “liberdade” no celeiro norteamearicano. Fica resolver se tamém sabe fazer peinetas tam bem coma o “humanista” José Maria Aznar.

É de supor que a maioria nom terá notícia disto. A libérrima e democrática opçom de Uribe foi consultar aos magistrados da Corte Constitucional para votar a Lei do Referendo e amalhoar no poder a Uribe, enquanto assassina a sindicalistas um mês si e outro tamém.

E porque nom falar de Cuba? Falemos entom de Cuba de Orlando Zapata, ou dos ajustes em matéria sanitária anunciados por Raul Castro, toda vez que 60% do orçamento estatal se dedica a sanidade e educaçom.

As greves de fame som parte da estrategia nova da oposiçom que vê além da melhora das condiçons penitenciárias. E ainda que o castrismo superou antes outras crises importantes como o Mariel, os balseiros em 2004, a execuçom de moços em 2003 ou a Primavera Preta, onde Saramago lançou o “até aqui chegamos”; o certo é que Cuba apresenta cada vez mais sombras e menos luzes de cara ao futura e sublinha as misérias do socialismo de estado que luzidamente o socialismo libertário tem assinalado.

Vaia por diante que Cuba é o país que sofre mais atentados e que o que som terroristas em Cuba som “desidentes” no Estado espanhol, embora em Euskal Herria esses desidentes sejam univocamente “terroristas”. Contodo, nom toda a desidência é terrorista e nom é menos certo que dana mais à causa cubana os defensores da revoluçom com argumentários irrisórios por vezes do que os próprios grevistas.

Duvido que Zapata for o “tonto útil” de Miami e o seu protesto nom era ridículo, entrevendo-se a sobrevivência do racismo dentro da sociedade governada por umha gerontocracia que incapaz de impulsar novamente processos revolucionários ao padecer a esclerose própria dos velenos do aparato e a sua total assimilaçom com o Estado. Dizer que nom se empresta atençom à repressom noutros países é certo, mas clarifica o carácter político dos presos cubanos indirectamente. E que Guantánamo exista nom vale como cortina de fumo, porque o sol nunca se tapou com um dedo.

Umha sociedade livre, forte, e após-capitalista que nom saiba administrar a divergência dentro e fora do estado nom é mais ca umha sociedade pobre, onde o Estado encorseta as manifestaçons da sociedade civil e onde se segue pensando em grandes capas como umha sociedade com valores capitalistas e, portanto, sublinha-se a consigna de Trotski da revoluçom mundial e permanente. Ora bem, nom confundamos isto com o franquismo que padecemos nesta II Restauraçom bourbónica´ e onde a credibilidade do disfarce democrata se baseia no direito à discrepáncia figurada, ocultando-se sistematicamente qualquer tentativa antissitémica a sério. Chomsky tem assinalado como o debate público no binómio político-mediático se encirra contrapondo posturas sempre e quando fiquem dentro dos dogmas do sistema e do “pensamento único” gerado polo “consenso ultraliberal”.

Seguimos lembrando as acusaçons contra “o grande ditador” Chávez por fechar meios de incomunicaçom golpistas – está provado em documentários como War on democracy –. Esquecemos que o Estado espanhol da II Restauraçom bourbónica fechou o Egunkaria por colaboraçom com banda armada – nom hai provas – e subvenciona-se a todos os jornais que nom rompam o “consenso ultraliberal”, algo que si fam, felizmente, publicaçons como o Novas da Galiza ou o Diagonal.

Cuba leva décadas resistindo nas portas do Império, mas a revoluçom estancou-se e fixo-se velha e a sociedade igualitária e libertária atafegou-se e o home novo nom nasceu e o velho quere ser consumista como em Ocidente, embora que quando o castrismo cair, como alguns pretendem, a sanidade e a educaçom públicas esfumarám-se e o cubano meio só poderá consumir até ser consumido, mui longe do sonho americano que é cada vez património de menos pessoas no marco do apartheid global.

A burocracia que criticara o Che Guevara fica lindíssima em Cuba. Nom se pode um contentar com o bipartito na Junta, por foi morno e tíbio, nem tam sequer social-democrata. Tampouco é bom sonhar com paraisos e panaceias que nom som tal. Podemos tirar valiosas liçons de Cuba e ainda de Bolívia, Ecuador ou Venezuela, mas somos periferia próxima e nom longínqua e devemos transformar a nossa realidade tangível e local. Vivemos no mal chamado primeiro mundo e a táctica e a estratégia política tenhem que ser diferentes goste-nos ou nom. Nom vaia ser que tenhamos o punho fechado quando falamos de Hispanoámerica e que essa mao esteja aberta quando da Galiza se trata.


Artigo tamém disponível aqui.